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resenha

O florescer dos imortais, Lia T. Medeiros

Nesse momento se fascinaram um com o outro. Mas também foi esse o momento em que seu destino fora decidido. Sua missão era um ter matado o outro no segundo em que se viram. Eram soldados, feitos para ser como os outros milhares que existiam. (p.10)

Imagine um mundo muito diferente do nosso, governado por deuses e povoado por criaturas míticas. Um mundo que começou no equilíbrio, mas acabou tomado pela guerra entre o deus do sol e a deusa que rege a lua. Esse é o ambiente que nos encontramos ao lermos O florescer dos imortais.

Em sua novela de estreia, Lia nos traz um universo fantástico que desde a primeira página já nos convida a participar dele e de sua história. Ao abrirmos o livro, somos apresentados a uma breve introdução dos habitantes. Além dos deuses, temos anjos (Solunes e Asa-Lunas), temos feras, temos anjos caídos e, por último, temos os eclipses, porém, eles não existem. Em seguida, chegamos ao começo da trama propriamente dita, onde passamos a acompanhar o personagem principal – sem sabermos que criatura ele é – enquanto ele é perseguido pelas tropas de anjos do deus Injhorn (sol) e da deusa  Irinith (lua) sem saber a razão.  Essa fuga e busca pela sobrevivência dura por quase toda a narrativa, e no meio disso tudo, nosso ser desconhecido tenta entender quem ele é e de onde veio. Sua memória é confusa, como um borrão de imagens que não fazem sentido dentro da sua cabeça, além disso, ele constantemente escuta outras duas vozes em seus pensamentos que não lhe pertencem, porém, de alguma forma, parecem familiares para ele.

Como leitores, somos cativados pelo mistério acerca desse personagem e pela maneira como os dois deuses e anjos convivem. Nós queremos todas as respostas, queremos saber o porquê do ódio, o porquê da guerra. É isso que nos prende na narrativa e não nos permite largar a leitura nem por um instante. Quando, por fim, avançamos para o seu encerramento, é como se uma bomba caísse em nosso colo. Tudo começa a fazer sentido e logo percebemos que estava muito longe do que esperávamos que fosse. É um final emocionante, de tirar o fôlego e que nos deixa com um gostinho de quero mais.

Uma criatura poderosa não precisaria ter sentimentos. Porém eles os possuíam para que pudessem criar outras criaturas, amá-las e protege-las do fundo do coração. Irinith e Injhorn falharam com isso quando criaram ferramentas. (p. 63)

Um dos pontos que mais me fascinou em O florescer dos imortais foi a maneira como os deuses foram criados e apresentados: eles são tão falhos quanto as suas criaturas. Algo que remete um pouco a criação dos próprios deuses gregos, que cometiam os mesmos pecados que os humanos. Essa representação da divindade como algo que é imperfeito e não imaculado, torna os deuses do sol e da lua personagens ainda mais realistas, se fazendo mais fácil para o leitor se conectar com eles e sentir compaixão por eles. Outro ponto, foi a questão do amor e a forma como a simbologia para tal sentimento foi feita e abordada dentro da própria mitologia do universo. Mas se falar muito sobre essa parte da história, acabará com a graça da leitura, então esperem para descobrir.

A narrativa é toda escrita em terceira pessoa, permitindo que conheçamos os pontos de vista de mais de um personagem ao mesmo tempo, ou seja, não apenas vemos o narrador centrado no personagem principal. Algo que, na minha opinião, casou com perfeição com a história do livro. Assim o mistério se intensifica e é montado peça por peça de acordo com o que cada personagem nos conta ou descobre. Além disso, a construção dessas mesmas peças que vão aos poucos se juntando à medida que a história avança é feita com maestria, sem deixar pontas soltas e sem entregar o jogo logo de cara, mas, ainda, nos dando brecha para criar teorias acerca da narrativa.  Por último, o fato de se tratar de uma novela de poucas páginas e o fato de ter uma linguagem fluida e atraente, torna a  sua leitura rápida e prazerosa. Podendo ser feita em apenas um dia ou dois, dependendo da sua capacidade de esperar para saber como a busca por respostas e como a guerra realmente acabam. Para os fãs de fantasia que estão sempre procurando algo novo para adicionar a sua coleção, O florescer dos imortais é uma aventura da qual não irão se arrepender.

Uma luz negra brilhou, e nela os dois desapareceram, dando lugar a outra figura: um ser alto com cabelos e asas negras, tais como as dos eclipses. Tempo havia retornado. (p. 62)

2 respostas em “O florescer dos imortais, Lia T. Medeiros”

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