Categorias
sobre escrita

Real ou ficção?

A gente quer saber escrever, não só escrever. Todo mundo escreve, ou melhor, quase todo mundo, ainda há analfabetos, eu sei. A escrita criativa vem se tornando um ofício cada vez mais acadêmico, mais estruturado, deixando de lado aquela ideia do artista que nasceu designado à dor e à delícia que é trabalhar com a escrita.

Como eu quero saber escrever cada vez mais e tenho essa paixão por estudar, eu leio tudo o que é livro que cai na minha mão sobre o processo de escrita de outros autores. É bom e ruim ao mesmo tempo porque eu fico com aquela loucura de que não pode ser assim tão difícil, mas quando chega minha vez de botar a mão na massa eu me lembro que é muito difícil, sim. Eu, a cada dia que passa, admiro mais autores de romances longos porque é um trabalho árduo.

Além de textos escritos por autores, esses dias eu li um chamado “A personagem de ficção”, escrito na década de 1970 por quatro autores e, dentre eles, o que me interessava de fato era o capítulo do Antonio Candido, sobre a personagem do romance. É um livreto bem interesse, apesar de teórico demais para o meu gosto, do qual eu tirei a seguinte passagem:

Quando, lendo um romance, dizemos que um fato, um ato, um pensamento são inverossímeis, em geral queremos dizer que na vida seria impossível ocorrer coisa semelhante. Entretanto, na vida tudo é praticamente possível; no romance é que a lógica da estrutura impõe limites mais apertados, resultando, paradoxalmente, que as personagens são menos livres, e que a narrativa é obrigada a ser mais coerente do que a vida.

Então, pensei cá com meus botões, quer dizer que na vida qualquer coisa pode acontecer, mas em um romance, não. E, quando você entende essa lógica, seu processo de escrita fica muito mais coerente. Por exemplo, se eu estou escrevendo um romance e faço a minha personagem cair em um buraco, algo que poderia acontecer com qualquer um neste mundo, este “cair no buraco” precisa, necessariamente, ter a ver com a narrativa, com o conflito, com a história. Não pode ser um fato aleatório, sem vínculo com o que a personagem está vivenciando naquela obra de ficção.

Lendo isso também me lembrei da máxima de que a ficção não tem a mínima chance ao competir com a realidade porque é cada história doida que acontece por aí, né? Ainda mais agora, que estamos vivendo esse mundo caótico com um lunático como governante. O nosso presidente é um belo exemplo de que não é possível competir com a realidade porque se ele fosse um personagem seu, ele não poderia fazer tudo o que faz porque a sua obra não teria verossimilhança. Infelizmente, na realidade, ele pode e se supera a cada dia.

Por outro lado, você pode fazer coisas fantásticas acontecerem na sua obra de ficção. Voltando à ideia da mulher que caiu no buraco; se dentro da história você tem um conflito em que ela fala com animais e ela encontrar uma minhoca no buraco e conversar com ela e isso impulsionar a narrativa, pronto, totalmente aceitável. Oquei, o exemplo é dos mais malucos, mas acho que deu para ter uma ideia.

Dentro dessa ideia de que nem tudo vira ficção, raramente uma história muito engraçada na vida real, daquelas contadas em roda de família ou amigos, consegue se tornar uma boa história ficcional. Uma história engraçada é pontual demais e uma comédia precisa de construção de personagem, de forma que os acontecimentos em torno dele fiquem engraçados. Quando você ri ao ler, você ri de uma tirada genial do escritor, de uma passagem breve. Eu não consigo lembrar de gargalhar lendo um romance (Mas claro que adoraria saber se há uma história assim, me avisem!).

Essas reflexões todas são para discutirmos o que é, de fato, importante na criação. Claro, primeiro, escrever. Escrever sem pudor, sem medo. Buscar uma história que seja apaixonante e criar em cima dela, visualizar possibilidades, cenas. Só de escrever isso já fico louca para começar uma nova história. Vamos?

5 respostas em “Real ou ficção?”

Ótima reflexão sobre a escrita, engraçado mesmo que não aceitamos certas coisas na escrita e a vida vem e te mostra situações muito absurdas, como o exemplo que tu citou sobre o genocida.

Um texto com uma leveza e uma pegada de concretude na medida. Amei! E, realmente, da vida não temos controle algum e as regras não estão dadas!

Adorei o texto! Interessante que, ao contrário do que eu pensava, na ficção, que a gente pensa que pode tudo, não se é livre para fazer com que os personagens façam qualquer coisa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *