Categorias
sobre escrita

O vício em “O jogador”

Fiódor Dostoiévski é um autor muito consagrado. Tido como fundador do Realismo, ele escreveu vários romances evidenciando principalmente o psicológico de seus personagens.

O jogador de 1867 é um exemplo de como ele explorou as diversas camadas da psique do personagem principal Aleksei Ivánovitch, um professor viciado em jogos de azar.

Nesse artigo, eu vou dar a minha interpretação sobre o vício de Aleksei trazendo explicações e conceitos da Psicologia sobre o que é essa condição do vício e quais as suas principais características.

Vamos lá?

O Vício

A Psicologia conceitua o vício como “um mecanismo de fuga emocional em que o indivíduo obtém prazer e foge de sua dor”, sendo principalmente em hábitos negativos para a saúde mental e física do indivíduo.

Mas como o vício em álcool, drogas, pornografia etc, são a mesma coisa?

Bem, o “viciado” procura em hábitos e coisas, sentimentos de bem-estar, recompensa, relaxamento e felicidade. E isso acontece com um cara que bebe sempre que chega de um dia de trabalho exaustivo ou com um adolescente que descobre na masturbação prazeres que ele nunca experienciou e essas duas pessoas tendem a ficar viciadas.

Mas, por quê?

Por que o vício se caracteriza por sentimentos bons e quando uma pessoa que talvez não sinta eles normalmente, a busca por esses sentimentos bons é constante, porém, essa busca se manifesta apenas nesses hábitos específicos.

O grande filósofo Aristóteles disse em seu trabalho Sobre as virtudes e vícios, que vícios são coisas vergonhosas que devem ser censuradas e dá exemplos de virtudes e vícios que se contrastam, sendo a falta de autocontrole, um dos vícios que ele apresenta e o mais importante para essa discussão.

Para ele, falta de autocontrole é definida por escolha dos prazeres em hábitos que a razão tenta evitar, entretanto, esse conceito não se aplica tanto na nossa realidade cheia de problemas psicológicos, não é mesmo?

Voltando para o âmbito da Psicologia, uma das causas do vício – identificada em todos os casos – é a baixa autoestima, que faz com que a pessoa duvide de suas habilidades e que constantemente procure por um certo preenchimento emocional. E na ausência do uso do vício, a falta desse preenchimento emocional se manifesta em depressão, ansiedade, delírios, desorientação etc.

Aleksei e Polina

É difícil descrever Aleksei Ivánovitch. Durante a leitura, nos 10 primeiros capítulos, eu não conseguia compreender sua personalidade e suas ações. Para mim, ele parecia ser uma personagem que apenas observava. Outra coisa é que eu não o entendia quando ele tinha surtos do nada. Esses pensamentos permaneceram por mais de 100 páginas do livro.

Já Polina Aleksándrovna – minha personagem favorita – é uma mulher misteriosa. Ela não aparece tanto nos capítulos, mas ela me fascina muito, simplesmente por não eu não saber nada sobre ela.

Porém, o que mais me fascina sobre esses dois é a reação que eles mantém.

No começo do livro, Polina convence Aleksei a jogar na roleta e ganhar dinheiro para ela (sem dar nenhum motivo ou razão), mesmo ele negando sempre. Essa relação de senhor (Polina) e escravo (Aleksei, como ele mesmo se chama) é recheado por uma paixão secreta que o escravo tem por sua senhora.

Polina começa a testar Aleksei para ter certeza que ele estava em suas mãos. Em uma das cenas mais ridículas desse livro, ela manda-o fazer uma “brincadeira” com uma baronesa alemã… e ele faz. Depois disso, ele se sente mal com isso, por ter cedido a Polina. O maior questionamento dele é o que deu em sua cabeça naquele dia:

“Não sei explicar o que deu em mim, se eu entrei em um estado de frenesi, de fato, ou se apenas saí dos trilhos e agora vou ficar mesmo arrumando escândalos até me arrumarem. Às vezes, parece que minha cabeça está confusa. Às vezes, parece que não estou longe da infância, do banco escolar, e que não passo de estudante que se diverte com suas travessuras.

Mas é a Polina, tudo isso é a Polina! […] Quem sabe fiz tudo isso por desespero (por mais tolo que seja pensar assim)? E não entendo, não entendo o que há nela de bonito! […] Uma verdadeira tortura.”

DOSTOIÉVSKI, Fiódor, O jogador

Qualquer pessoa que lesse o livro e visse esses trechos, ela provavelmente interpretaria apenas como a extrema paixão de Aleksei por Polina… mas não eu! Eu sou o diferentão, o inovador.

Para mim, esses trechos não mostram o quão Aleksei é apaixonado por Polina, e sim, eles mostram as consequências do vício de Aleksei para sua mente. Você deve estar pensando: “Mas você disse que ele era viciado em jogos de azar. O que os jogos têm a ver com isso?”. Bem, eu te respondo, que o vício que eu falo não é o vício em jogos, especificamente.

O vício que falo é Polina. Ela é a personificação do vício de Aleksei. Uma pessoa linda que traz desejos em uma vítima e que convence a fazer algo que ela sabe que não é legal para a mesma. Sem razão. Polina faz Aleksei perder o seu autocontrole, mas que ainda assim faz ele se sentir diferente e iludido, porém, apenas naquele momento. Depois dele, ele cai na realidade.

___

Dostoiévski não mede palavras em relação a expor a realidade dos jogos de azar e como eles podem destruir qualquer pessoa, ele expõe a ruína daquelas pessoas que cedem suas almas para o jogo e acabam perdendo tudo, uma dessas coisas é a vida. Muitas pessoas devem pensar que o objetivo de quem joga e joga e joga num cassino é ganhar dinheiro. Em uma parte, elas estão certas. Mas depois de ganhar uma vez e perder várias seguidas, o objetivo não é mais o dinheiro, é o êxtase que se sente quando se ganha, o êxtase do poder, da possibilidade, da oportunidade. Três coisas que acabam na próxima aposta.


Referências bibliográficas

Hammond, Maitê. (abr/2017). Como começa um vício?. Publicado no blog MundoPsicologos.com.

Aristóteles. Sobre as virtudes e vícios.

Dostoiévski, Fiódor. (nov/2017). O jogador (Das memórias de um jovem). Publicado pela Companhia das Letras no selo Penguin Companhia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *