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Os relatos inspiradores de Thays Pretti

Entre todas as entrevistas que tenho feito para essa coluna, o papo com a autora Thays Pretti com certeza foi um dos que mais me inspirou. Me reconheci em muitas das respostas da Thays, principalmente no que diz respeito a como é difícil dizer “sou escritora” em voz alta e as inseguranças que carregamos como autoras independentes. Mas essa trajetória na literatura também tem suas recompensas, como a Thays bem ilustra nessa conversa.

Eu a conheci pelo seu canal no Youtube e logo de cara me senti atraída pela sua forma de falar sobre literatura com tanta leveza e simpatia. Agora, depois de conhecê-la um pouquinho mais, só posso dizer que não vejo a hora de ler um dos seus livros 🙂

Como você se chama e a que se dedica quando não está escrevendo?

Meu nome é Thays Pretti e, no momento, estou Gerente do Livro, Leitura e Literatura na Secretaria de Cultura de Maringá, o que basicamente indica que eu lido com o funcionamento das seis bibliotecas públicas municipais da cidade, além de ações e políticas voltadas ao Livro, Leitura e Literatura – o que passa por burocracias relacionadas às bibliotecas, aquisição de novos livros para acervo, ações relacionadas a leitura em conjunto com outras secretarias, presença das bibliotecas nas redes sociais, organização da festa literária da cidade, etc.

Quando se descobriu escritora?

O desejo de ser escritora vem desde a infância. Os livros sempre estiveram muito presentes na minha vida e, consequentemente, a escrita passou a ter um lugar especial. Na adolescência, comecei a escrever em blog e em 2009 publiquei meu primeiro livro, de forma independente (minha tia ajudou com os custos da publicação).

Depois desse primeiro livro, passei um tempo sem publicar em mídia física, mas ainda mantinha textos em blog. Em 2015, fui convidada como cronista do jornal O Diário do Norte do Paraná, para onde escrevi até 2019, a princípio quinzenalmente, mas logo semanalmente.

Em 2017, juntei algumas das crônicas em um e-book, “Efêmeras”, disponível na Amazon. E em 2019 publiquei meu livro de contos, “A mulher que ri”, pela Patuá, uma editora de médio porte, que publica por seleção e sem reverter os custos da publicação para o autor (ou seja, não paguei para publicar).

A escrita é fundamental na minha vida desde sempre e não me vejo sem ela, mas acho que só depois dessa publicação mais “tradicional”, ou seja, sem que eu arcasse com todos os custos da publicação, é que eu passei a me entender mais abertamente como escritora.   

Sobre o que você escreve? O que te inspira?

Eu gosto muito de escrever sobre o cotidiano, sobre a psicologia dos personagens, sobre microconflitos que às vezes vivenciamos por sermos quem somos, por estarmos em tal ou tal contexto. Gosto de falar sobre momentos de (auto)descoberta, sobre sentimentos sutis e miúdos, sobre a poesia do dia a dia. Dificilmente há grandes aventuras no que eu escrevo: eu gosto mais da lupa que da luneta ou do telescópio. Meu olho se atrai por delicadezas.  

Como você descreveria o seu estilo de escrita?

Eu tendo a ser poética e lúdica, acredito, mas muitas vezes para falar sobre coisas doloridas e cruas. Eu li em algum lugar que há certas dores sobre as quais só é possível falar por meio da poesia. Acho que é um pouco do que guia minha palavra. Também gosto de ser simples e acessível, e acho que a literatura é uma forma de comunicar. Então, meu estilo também é afetado pelo meu desejo de alcançar, criar um laço com  o leitor ou a leitora.

Como eu gosto mais da narrativa curta (contos, crônicas e poemas) do que da longa (romance), também tendo a deixar um pouco da história para a imaginação do leitor ou da leitora, e focalizar flashes ou momentos. Como diz o Hemingway, o conto é um iceberg, e a gente, como autor(a), só mostra a ponta dele. Acredito nisso. 

Onde podemos encontrar as suas histórias?

Meu primeiro livro, “Do silêncio”, está indisponível. Tenho um disponível pela Amazon, o “Efêmeras”, que é uma coletânea de crônicas. E tenho o “A mulher que ri”, que é meu livro “de trabalho”, o que ainda estou divulgando e tentando levar adiante. Fora isso, publico no Medium e no Instagram.

Quais são as suas principais referências?

Meu “top 3” de referências na literatura vão ser para sempre Clarice Lispector (em primeiro lugar), Katherine Mansfield e Kate Chopin, seguidas de perto por Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Gabriel Garcia Marquez, José Saramago e Machado de Assis.

Mas vou fazer uma lista (não ordenada e não definitiva) de livros/autores contemporâneos que eu acho excelentes e que admiro muitíssimo (sou bem fã de contemporâneos e gosto de ver como a literatura se faz enquanto coisa viva). São eles:

  • Garota, Mulher, Outras – Bernardine Evaristo
  • O peso do pássaro morto – Aline Bei
  • Tudo é rio – Carla Madeira
  • Desesterro – Sheyla Smanioto
  • Caderno de um ausente – João Anzanello Carrascoza
  • Vamos comprar um poeta – Afonso Cruz
  • Eles eram muitos cavalos – Luiz Ruffato
  • Torto Arado – Itamar Vieira Júnior
  • Tudo pode ser roubado – Giovana Madalosso
  • Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Como é ser escritora independente?

Eu acho que a principal característica disso de ser uma escritora independente é a certeza de que a gente não ganha a vida com a escrita e a literatura. A gente sempre precisa dar um jeito, seja com um emprego outro, não relacionado, seja com aulas, cursos, palestras, tradução, revisão, o que for. Acho que “funcionar” como escritora independente tem muita relação com assumir isso com tranquilidade, e entender que ser escritora vai ser uma parte do que eu sou (ainda que eu desejasse que isso fosse meu eu inteirinho).

Ao mesmo tempo, é saber que é sempre uma luta, uma busca. Não é fácil. Mas é recompensador formar nosso círculo, aquela coletividade que se ajuda a crescer, que troca, que vai adiante junto. Criar essa rede de apoio entre pares é muito rico e fundamental para não perder a coragem e a leveza.

Quais foram os seus maiores desafios nessa jornada?

Acho que os meus maiores desafios tiveram sempre a ver com me entender enquanto escritora. Quando a gente escreve e leva a escrita/literatura a sério, a gente tem uma insegurança enorme em dizer “sou escritora”, porque parece que estamos profanando um terreno sagrado. E não, esse é um lugar que eu posso ocupar, que pessoas que se dedicam à escrita de forma responsável podem e devem ocupar.

A escrita coloca a gente nessa posição porque a maior parte da população é letrada (alfabetizada) e, por consequência, escreve. Demora um tempo para a gente absorver a diferença entre usar a escrita como ferramenta e usar a escrita como arte. Mas absorver isso e me entender como escritora fez toda a diferença em relação à forma como eu lido com a literatura e a escrita desde então. Posso entender a literatura como um templo? Sim. Mas as portas dele estão abertas.

E as maiores conquistas?

Acho que minhas maiores conquistas até hoje foram a publicação do meu livro “A mulher que ri”, que veio de um processo muito rico de pesquisa e escrita e me fez ter contato com muita gente que eu admiro, e ter criado uma oficina de escrita que impulsionou o trabalho de outras mulheres escritoras aqui de Maringá. Vê-las criando é quase como se eu estivesse criando também.

Que escritores nacionais e independentes você admira e recomenda?

Eu acho que, pelo próprio formado do mercado editorial no Brasil, muitos autores que chegam a ser conhecidos por um público maior continuam funcionando muito como “autores independentes”, mesmo em editoras de mais peso. Então, poderia trazer de volta aqui algumas das indicações da pergunta 6 ali em cima. Mas, para diferenciar da outra resposta, vou trazer alguns autores e autoras que publicam por editoras pequenas, ou por conta própria, ou só em meio virtual e cujos trabalhos recomendo e acredito que deveriam ter mais destaque.

  • Mayara Blasi: apesar de ainda não ter publicado livro físico (mas sei que tem algo vindo por aí), a Mayara tem diversos textos no Medium, e é uma pessoa com uma sensibilidade linda e um domínio primoroso das palavras. É com certeza uma das minhas contemporâneas favoritas, e tem uma oficina de escrita que já destravou muita palavra presa. Recomendo todas suas oficinas e tudo o que ela escreve.
  • Estela Lacerda: lança agora em setembro seu primeiro livro de poemas, “o rio seco que corre em mim”, que li assim que foi gestado e depois da preparação (fiz uma última revisão antes de ir para a editora). Esse título diz muito sobre seu modo de escrever: cru, seco, rasgado, com uma poesia repleta de cotidiano, passado, delicadezas e dores. Como boa virginiana, trabalhou muito seus textos antes de pensar em publicar, então seu livro já nasce maduro, pronto. Uma poesia pra sentir com o corpo todo e que recomendo fortemente.  
  • Ana Favorin: mais ativa na cena do SLAM em Maringá, a Ana tem uma poesia que é igualmente suave e feroz. Seus temas geralmente são mais sociais, com a presença de Marias e Franciscos e toda uma gama de pessoas muitas vezes invisibilizadas na literatura. Por enquanto também publica apenas no Medium, mas recomendo tudo o que ela escreve.
  • Suélen Dominguês: a mais experimental das minhas indicações, Suélen se permite ir além. Brinca com as palavras, com formatos, com o som da língua. Explora temas incomuns, narradores incomuns, focalizações inusitadas. Tudo nela é criatividade e experiência, e é por isso que eu acho tão importante que ela conste nessa lista. A palavra deve ser lúdica, deve ser jogo. E é isso que a Suélen faz com ela. Escreve no Medium.
  • Piera Schnaider: com um aspecto mais intimista, Piera tem uma poesia melodiosa e precisa, muitas vezes curtíssima, mas que sempre alcança o sumo, o núcleo, a semente. Muitos de seus poemas trazem um pouco da perspectiva de vida de uma mulher lésbica, mas ela não se restringe a isso. Um dos temas que eu acho que ela aborda com mais sensibilidade é a metalinguagem (metapoesia), quando fala sobre o fazer poético. Piera publica no Instagram, tem letras de música gravadas por vários artistas e um livro artesanal chamado “Água Viva”.
  • Eury Donavio: lançou no ano passado seu primeiro livro, “Fiados na esquina do Céu com o Inferno”, que passou por uma consultoria literária com a Mayara Blasi e eu, e uma nova consultoria com a Anita Deak, antes de ser publicado. O livro é muito bem escrito, divertido, com uma pegada próxima à do Ariano Suasuna que eu acho que pode atrair muita gente. O Eury é um escritor cuidadoso e dedicado (duas características que eu admiro muito em escritores) e eu tenho certeza que ainda terá muito destaque com seus trabalhos.

Quais são as suas 3 dicas de ouro para quem está começando?

  1. Leia clássicos, mas também leia contemporâneos, especialmente aqueles que escrevem no mesmo gênero que você pretende escrever. Se você não ler contemporâneos, como vai saber como as pessoas têm escrito na sua própria época? Ler apenas clássicos pode te influenciar a escrever um texto anacrônico, datado, o que não é legal. Então leia contemporâneos do Brasil, de fora, de estilos variados. Brinque, teste, experimente. Se permita.
  2. Revise, revise, revise. Corte muita coisa. Nenhum texto nasce pronto, então é importante ter um olhar clínico e crítico para o próprio texto. Se possível, tenha dois leitores beta, bem diferentes um do outro e bem sinceros, que apontem o que gostaram e não gostaram, o que acham que funcionou e não funcionou. Você não precisa aceitar todas as sugestões deles, afinal, o texto é seu, mas é importante saber como seu texto está chegando até os leitores.
  3. Encontre seus pares. Podem ser outros escritores e escritoras na mesma cidade, podem ser outros escritores e escritoras com quem você só tem contato virtual. Não importa: encontre seus pares, leia-os, apoie-os (mas, atenção: é importante que seja recíproco). Formar uma rede de apoio é fundamental para crescer, se assumir e se estabelecer enquanto escritor(a).
  4. Dica extra: faça cursos, participe de oficinas, entre em coletivos de escritores (ou monte um, se não houver nenhum na sua cidade). É importante se forçar a escrever, pensar a escrita, discutir sobre livros, escrita, literatura. É só assim que a gente se aperfeiçoa.

Quais são seus planos para o futuro como autora?

Estou trabalhando em um novo livro de contos, mas ainda sem data para finalizar. Também tenho buscado aprender sobre formatos novos e feito algumas experiências. Em 2022, quero retomar as atividades com o Coletivo Palavrão, do qual eu faço parte, e montar uma ou duas oficinas de escrita. À parte isso, sempre publico pequenos textos no Medium e no Instagram.

Por onde o público pode conhecer o seu trabalho?

Meus livros: “Efêmeras” e “A mulher que ri

Medium.

Instagram.

Meu canal no Youtube.

Por Regiane Folter

Me chamo Regiane, tenho 28 anos e sou natural de São Paulo. Me formei em jornalismo e desde então trabalho com comunicação, principalmente produção de conteúdo e marketing. Tenho uma página no Medium, na qual publico periodicamente desde 2017, além de escrever para outros portais. Recentemente publiquei meu primeiro ebook de histórias curtas, AmoreZ, pela Amazon.

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