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Os aprendizados da escritora independente Gabriela Araujo

“Quando sentir, escreva”, livro de poemas de Gabriela Araujo, foi uma das obras que mais me tocou ano passado. Acredito que muitos escritores (e especialmente escritoras) se sentiriam identificados com a poesia de Gabi pela forma como ela descreve a escrita como uma ferramenta para lidar com os mais diversos sentimentos.

A poesia não está somente no livro publicado por essa autora em 2020 como ebook e há poucos dias disponível também em formato físico; em todos os textos e fotos que Gabriela compartilha em suas redes, é possível captar aquela leveza, suavidade e beleza que só a poesia possui. Bom demais!

Como duas autoras independentes, eu e a Gabi nos conhecemos em um projeto de apoio entre escritoras e desde então venho acompanhando sua carreira com as palavras. Nessa entrevista, a autora nos conta mais sobre seus projetos, planos e aprendizados.

Como você se chama e a que se dedica quando não está escrevendo?

Meu nome é Gabriela Araújo, eu sou escritora e também redatora e tradutora. De maneira geral, eu hoje trabalho com escrita e tradução: estou voltada pra tradução literária e como redatora eu atendo clientes de segmentos diferentes.

Quando se descobriu escritora?

Eu comecei a escrever quando eu era adolescente, que foi a época em que eu comecei a ler mais também. Comecei escrevendo fanfic e, embora eu gostasse muito de escrever naquela época, eu não via a escrita como uma possibilidade de carreira.

Me formei em turismo, fui trabalhar na área, e só comecei a trabalhar com escrita mesmo na pandemia, em abril de 2020. Foi quando eu decidi que ia publicar um livro com os poemas que eu tinha escrito ao longo dos anos, é esse o livro que eu inclusive vou lançar em versão física agora em maio de 2021. Demorou um pouquinho até eu conseguir me ver como escritora.

Sobre o que você escreve? O que te inspira?

O meu primeiro livro, “Quando sentir, escreva”, é de poesia. Eu lancei a versão dele em ebook em agosto de 2020 e ainda no ano passado lancei dois contos de ficção: “Poeira estelar” e “Ainda bem que temos o Charme”. Essas três publicações foram independentes, publicadas na Amazon.

Apesar de estar fazendo a versão física do meu primeiro livro agora, eu não pretendo me manter na poesia. Eu gosto muito de escrever ficção realista, que é aquela ficção que poderia acontecer com qualquer pessoa. Gosto de passear por alguns gêneros e atualmente estou escrevendo um livro de suspense, mas todas as minhas histórias são ficções realistas. Nada de sobrenatural, nada de fantasioso. Gosto de escrever sobre a realidade mesmo, sobre problemáticas humanas.

Como você descreveria o seu estilo de escrita?

É difícil essa pergunta haha! Eu gosto muito de escrever com metáforas, independentemente do gênero. Gosto de fazer reflexões na escrita, de trazer alguma dor, algum problema que a gente tenha. Como eu escrevo histórias com protagonismo de mulheres negras, eu tento trazer as coisas desse universo também.

Acho que tenho um pouquinho de problema pra deixar a escrita bem casual, como eu gosto muito de usar metáforas e palavras rebuscadas, às vezes o texto fica um poquinho difícil e aí a revisora me dá um puxão de orelha! Minha ideia é tornar o texto o mais acessível possível e isso a gente vai aprendendo e aperfeiçoando com o tempo.

Quais são as suas principais referências?

Eu tenho lido cada vez mais mulheres, principalmente mulheres negras, mas também mulheres de maneira geral, e cada vez leio mais livros dentro do meu gênero, além de livros que são um pouco mais técnicos, que falam sobre questões raciais, de não-ficção, etc.

Eu to tentando encontrar meu estilo de escrita característico, então eu me apoio em escritoras como a Conceição Evaristo, a Jarid Arraes, a Liliane Prata – essas três são brasileiras. E falando de escritoras estrangeiras, eu gosto muito da Liane Moriarty, da Elena Ferrante. Me inspiro nessas pessoas.

São sempre histórias de mulheres, narrativas que falam sobre o que é ser mulher na sociedade e falam sobre o machismo, a homofobia, a transfobia, etc. Então cada vez mais eu busco criar nas minhas histórias todas essas facetas de ser mulher e toda essa diversidade que há, porque não existe um jeito único de ser mulher.

Onde você publica seus textos? Livro, blog, etc?

Eu tenho publicado livros como escritora, mas eu também publico artigos no meu blog pessoal, em que eu coloco meu portfolio como tradutora e redatora, e tenho outro blog que foi na verdade a primeira plataforma virtual que eu criei que se chama Negra em Movimento. É um blog que eu criei em 2018 e aí eu falo sobre viagens, negritude e feminismo. Embora eu não atualize mais nenhuma dessas plataformas como eu estava fazendo antes por conta do meu trabalho, eu ainda publico textos lá e divulgo no LinkedIn.

Como é ser escritora independente?

Olha, contrariando as expectativas, no início, quando eu publiquei o meu primeiro livro, eu conseguia lidar com mais facilidade com a escrita independente. Eu ainda não trabalhava com redação e tradução, então meu tempo estava um pouco mais livre nesse sentido e eu conseguia organizar e articular melhor o que eu gostava e achava que precisava fazer.

Hoje em dia, uma coisa muito complicada pra mim é o gerenciamento de tempo. Como eu falei, eu vou lançar a versão física do meu livro e eu não tenho conseguido me dedicar pro marketing dele e falar dele na internet como eu gostaria exatamente porque eu não consigo gerenciar as obrigações que eu tenho com o “trabalho que paga as contas” e com o que eu gostaria de fazer, tanto que pros meus próximos projetos e até para o “Quando sentir, escreva”, eu adoraria que uma editora me notasse e eu conseguisse lançar por uma editora! E nem é pela ideia do encher os olhos com a publicação tradicional porque eu gosto muito de ter controle sobre tudo na vida independente, de tomar as minhas decisões, de aprender sozinha porque você acaba quebrando um pouco a cara e aprendendo assim. Porém, o que hoje pesa pra mim em querer uma editora daqui pra frente é em exatamente ter um suporte pra eu me concentrar mais no que eu quero fazer que é escrever. E conseguir escrever hoje em dia, com os meus outros trabalhos, já é uma complicação.

Então eu diria que ser escritora independente é muito difícil, principalmente no Brasil, mas ao mesmo tempo é muito gratificante. Acho que depende mesmo do seu estilo de vida, da sua disponibilidade de tempo e do seu objetivo enquanto escritora. Tudo depende do seu objetivo de acordo com o tipo de publicação que você quer.

Quais foram os seus principais desafios nessa jornada?

Hoje é a questão do gerenciamento do tempo, mas de início era a insegurança porque eu não conhecia muita coisa do mercado literário, então eu tive que correr atrás para descubrir tudo. Procurei informação na internet, blogs que falassem sobre escrita, conversei com muitas escritoras também, com quem tinha publicado por editora, quem tinha publicado independente, etc, pra conseguir definir exatamente qual era o melhor caminho pra mim.

Então os principais desafios foram a insegurança por não saber muito bem por onde pisar e o medo de cometer erros e hoje é a questão do gerenciar o tempo porque publicar um livro definitivamente não é só escrever. Se você quer que as pessoas leiam, você precisa falar sobre ele, você precisa levar ele pros espaços, etc.

E as maiores conquistas?

Eu acho que foi a publicação do livro e dos meus contos, apesar de pequenos e de eu não ser uma escritora muito conhecida. Cada vez que a gente expressa nossa voz e expõe a nossa mensagem, esse é um ato de coragem porque você tá ali se colocando vulnerável de certa forma. Mesmo quando você cria uma história de ficção com outras pessoas, com personagens que são diferentes de você e tomam outras atitudes, você tá se colocando atráves deles. Está colocando seu trabalho disponível pra críticas, então é uma conquista muito grande ter a coragem de fazer isso.

Que escritores nacionais e independentes você admira e recomenda?

Olha, eu conheci tanta gente legal nesse período! De um ano que eu sou autora, né. Eu poderia dizer a Flay Alves, que foi a minha mentora na vida da publicação independente, ela foi maravilhosa pra mim. Foi a primeira escritora independente que eu conheci e ela me deu muitas dicas. Eu conheci muita gente legal no twitter também que viraram meus amigos, como o Lucas Santana, o Bruno Peçanha, o Vitor Marques, a Luciana Fauber – são pessoas que escrevem muito bem, criam narrativas muito ricas e principalmente estão sempre buscando aperfeiçoar a sua escrita.

Tem a Lyli Lua que eu conheci no twitter também, tem a Lívia Ferreira, conhecida mais como AfroCaminhão. Ela fez uma releitura incrível recentemente do Sítio do Picapau Amarelo com protagonismo sáfico, sobre um casal de mulheres negras e idosas. O twitter pra conhecer literatura independente é absolutamente incrível.

Quais são as suas 3 dicas de ouro para quem está começando?

Primeiro ter consciência de que principalmente no início a gente não sabe de muita coisa, mas isso não significa que você não é uma pessoa capaz e que não vai conquistar o que você quer, os seus objetivos. É preciso entender que todo mundo começa pequeno, meio como na tradicional analogia do ser humano: a gente nasce sem saber andar, falar, com alguém nos alimentando, com alguém nos limpando… Então qualquer jornada quando a gente começa, a gente começa que nem humano: sem nada e logo vamos construindo tudo isso. Se você for autor independente, você vai ter que aprender muita coisa sozinho. Isso vai ser frustrante muitas vezes, cansativo outras vezes, mas vale a pena. Se é o que você quer fazer, sempre vale a pena.

A segunda dica é pra pessoa estudar o máximo que ela puder, não só sua escrita mas também a escrita de outras pessoas, principalmente daquelas do mesmo grupo social que você. Eu sou uma mulher negra então acho super importante ler histórias de outras mulheres negras, porque é como se fosse a minha voz num sentido coletivo. Isso é bastante importante porque mesmo quando a gente faz parte de minorias sociais, a nossa voz não é universal. Fazemos parte do mesmo grupo, mas temos vivências diferentes dentro dessa vivência bem maior. Então acho interessante conhecer pessoas que têm vozes parecidas com as suas e também histórias de pessoas diferentes de você, pra você conseguir ampliar as suas visões de mundo. É interessante ler histórias sobre grupos diferentes que não estão naquela hegemonia, naquele padrão. Porque por exemplo, eu faço parte da comunidade negra, mas isso não significa que eu saiba muita coisa sobre a comunidade indígena.

É sempre interessante aprender a respeitar esse grupos, você cresce como pessoa e como escritor. As suas histórias vão passar mais verdade porque estão falando de um lugar com um olhar de mundo mais abrangente.

A terceira dica é sobre paciência, principalmente se você é alguém desconhecido. Não vão começar a ler as suas histórias do dia pra noite, você precisa trabalhar numa divulgação. Tenha principalmente paciência com você mesmo. Eu acho que quando a gente não vê resultados imediatos ou mesmo depois de muito tempo, a gente começa a achar que está fazendo alguma coisa errada, ou se sente culpado achando que podemos fazer mais, e na verdade não tem como a gente fazer mais. A gente só pode fazer o que a gente pode fazer, né. Não é todo mundo que vai ter condições financeiras de investir num marketing absurdo pra divulgar as histórias, você vai ter que fazer por conta própria, principalmente no início.

Mas paciência também pra entender que às vezes a gente tem muitos projetos ao mesmo tempo e às vezes vamos precisar pausar um ou adiar outro porque temos obrigações e infelizmente ser escritor no Brasil e conseguir viver da escrita literária é muito difícil. Eu digo com toda a tranquilidade que a maior parte dos escritores que eu conheço não tem a ideia da publicação literária como profissão principal. Sempre ficamos organizando e dividindo esse tempo com outras atividades e isso mina muito a nossa possibilidade de crescer. O processo se torna muito mais longo e difícil porque a gente não tem esse tempo disponível.

Então é isso, paciência pra fazer as coisas que você quer fazer no tempo que você tem, no ritmo que você consegue. Isso é muito difícil de entender e de aceitar, principalmente porque a gente começa a se comparar com outras pessoas, mas é tudo no nosso tempo porque não tem como ser diferente. Não tem como a gente sair atropelando outras coisas, se encralacando, entrando em dívidas, acabar num esgotamento emocional mesmo e a coisa toda, a jornada não vai valer a pena.

Quais são seus planos para o futuro como autora independente?

Tenho dois projetos em andamento, só que vão demorar pra sair. São dois livros, um é de suspense doméstico e psicológico, ainda não sei se vai ser uma novela ou um romance. Ele ainda vai me dizer haha! O outro é um livro de contos falando sobre relações familiares em diversas formas, não só a família tradicional que a gente pensa, mas também o relacionamento entre amigas, entre parentes que não são ligados por sangue, entre famílias adotivas, enfim. Família.

Eu não sei se vou publicá-los independemente, ainda tenho que pensar nisso, mas acho que ao menos o de suspense eu vá tentar publciar por editora. Mas só se eu conseguir um contrato bom, em que eu veja que há vantagem pra mim como escritora, que eu não vou pagar tudo e ficar desamparada como algumas editoras infelizmente fazem hoje em dia.

Por onde o público pode acompanhar o seu trabalho?

Os meus canais são o Twitter, o canal onde eu to mais ativa hoje em dia, o Instagram, o LinkedIn e meu site pessoal. Dentro desse site eu escrevo artigos de desenvolvimento pessoal e de carreira, falo sobre sentimentos, escrita e cultura. E fora dele também tenho o blog Negra em Movimento.

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