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A trajetória como escritor independente de Guímel Bilac

Há algum tempo li o primeiro livro de Guímel Bilac, escritor independente e autor de “Minha vida está uma merda, mas não precisa ser”, um relato sincero e corajoso que me impressionou. Eu já conhecia o trabalho desse escritor lá no Medium, mas com seu livro senti como se eu tivesse me introduzido em sua própria história e virado espectadora de sua vida.

Como escritores, deixamos muito de nós nas coisas que escrevemos e, nessa obra autobiográfica, Guímel se deixou inteiro, de uma forma muito pura e livre. Essa abertura do autor em compartilhar sua trajetória me pareceu uma linda oportunidade para conhecer mais sobre ele e seu trabalho por meio desse projeto de entrevistas a escritores independentes que estamos começando aqui na Escritor Brasileiro 💪

Abrindo caminhos como autor e conectando seus passos com outros escritores e leitores também, Guímel vai deixando em sua escrita (e também nessa entrevista) pedaços de si. Bora conhecê-lo!

Como você se chama e a que se dedica quando não está escrevendo?

Meu nome é Guímel Bilac. Muita gente pensa que é pseudônimo, mas não é. O primeiro nome é a terceira letra do alfabeto hebraico e o sobrenome eu herdei da família do meu pai. Eu sou tecnólogo civil e trabalho, veja só você, com números. Elaboro estudos de viabilidade para construção civil. Embora eu me sustente trabalhando com os números, eu gosto mais das palavras mesmo.

Quando se descobriu escritor?

Me redescobri na verdade, eu acho. Eu já escrevia na adolescência, mas sem nenhuma pretensão de ser escritor. Como sempre fui muito introvertido, eu geralmente conversava mais com o papel. Parei de escrever quando me casei, aos 22, e voltei a escrever depois de um divórcio, aos 40, mas muito mais como exercício terapêutico do que com o pensamento de me tornar escritor. Eu voltei a escrever por que li sobre a terapia da escrita, conceito desenvolvido por James Pennebaker nos anos 70.

Esse exercício consistia em escrever sobre os sentimentos resultantes de uma experiência e depois afastar-se, jogar fora mesmo. Foi assim que voltei a escrever há uns 3 anos. No meio desse exercício eu escrevi um livro auto-biográfico, que era um texto p’ra ser jogado fora que, penso eu, mescla muita coisa: autoajuda, autobiografia, mas algo de romance também, por causa das histórias com início, meio e fim que o livro acabou demandando. Foi depois dessa experiência, que julgo como um divisor de águas, que passei a escrever com mais frequência e, diria até, com mais compromisso.

Sobre o que você escreve? O que te inspira?

Apesar do meu primeiro livro ser muito pessoal, ele não tem nada a ver com o que eu escrevo hoje e com o que pretendo escrever no futuro. Hoje, eu escrevo poemas e crônicas sobre situações cotidianas. Os textos continuam sendo muito pessoais, mas hoje eu me vejo mais próximo do que quero escrever no futuro. Eu escrevo muito sobre minhas crises, meus medos, minha visão de vida e da vida das pessoas que me cercam. O que mais me inspira são as pessoas. Acho a subjetividade das relações uma das coisas mais incríveis da vida e acho que relacionar-se tem como presente a possibilidade de ver os detalhes das pessoas, se encantar, se desencantar e as lições que isso traz.

Os altos e baixos da vida me inspiram também. Eu acho que é essa montanha russa que é viver que é o centro da didática mais sustentável de treinar o olhar e o coração. E isso influencia a escrita, porque, se você reparar bem, escrever é colocar como seus olhos leem a vida na ponta de um lápis, de uma caneta, ou num cursor.

Como você descreveria o seu estilo de  escrita?

Essa pergunta é difícil de responder. Eu me vejo como um escritor em construção ainda, o que é confrontador num mundo que grita “você já deveria estar pronto!”. Eu acho que eu consigo responder que tipo de coisa quero escrever. Eu gosto muito de escrever crônicas e poemas, mas tenho dificuldade de me rotular como cronista ou poeta ou dar um rótulo p’ro meu estilo de escrita. Acho que sou um cronista minimalista, que não tem um vocabulário tão amplo, mas que tenta colar as palavras que repetimos tanto tentando fugir do lugar comum ou tentando não dar ao leitor a possibilidade de descobrir qual será minha próxima frase.

Onde você publica seus textos? Livro, blog, etc?

Eu escrevi dois livros. Um pela Editora Viseu, que foi um divisor de águas p’ra uma fase da vida e, diria eu, até da escrita, porque quando eu o escrevi eu não sabia que a escrita ganharia tamanha importância p’ra minha vida como tem hoje.

No final de 2020 eu publiquei de forma independente na Amazon, meu segundo livro, que se chama “A Logística dos Pedaços”. Ele é o que eu gosto mais e diz mais do que quero fazer daqui p’ra frente. É uma compilação de poemas e crônicas que escrevi de 2018 a 2020. Escrevo no Medium, que p’ra mim é uma das melhores coisas da vida, o achado dos últimos anos. 

Quais são as suas principais referências?

Eu li muita literatura na adolescência. Gostava muito do Carlos Drummond de Andrade. Mas como meu trabalho sempre foi uma coisa mais técnica, durante muito tempo eu consumi só livros voltados p’ra minha área de atuação. Quando voltei a ler, eu fui ler Clarice, porque me identifiquei com muitas coisas não só da história dela, mas em como ela se via como escritora.

P’ra crescer na poesia, eu estou no segundo livro da Wislawa Szymborska e li recentemente dois livros da Ana Martins Marques, que mexeram muito comigo e me inspiraram bastante. Eu gosto muito do que chamo de nova escola de escrita. Algumas pessoas p’ra mim se movem nessa forma envolvente e peculiar de escrever, como por exemplo a própria Ana Martins Marques, porque parece que ganhou dois olhos a mais p’ra observar o cotidiano (risos).

Livros que li recentemente que me inspiraram e que mostram isso são o “O Peso do Pássaro Morto”, da Aline Bei e “Se Deus Me Chamar Não Vou”, da Mariana Salomão Carrara. Curiosamente, as minhas referências não vêm só da literatura. Eu cresci ouvindo muito, por exemplo, Engenheiros do Hawaií e Legião Urbana. Acho que Gessinger e Renato são grandes letristas que a música brasileira teve, então a música acaba permeando muito meus textos também. Gessinger sempre teve como características usar trocadilhos infalíveis em suas letras; Renato p’ra mim era um cronista nato, assim como o  Antônio Cícero, que escreveu belíssimos poemas que foram musicados pela irmã, a Marina Lima e por Adriana Calcanhotto. Então a música é uma grande inspiração p’ros textos também. Acho que aqui no Brasil a gente é presenteado pelo legado da MPB. Boa parte da nossa música é crônica cantada.

Como é ser escritor independente?

Talvez parte da minha resposta soe como encorajamento p’ra muita gente, ao mesmo tempo que não. Hoje, eu diria que muitas vezes a publicação independente será o melhor dos caminhos. Existem algumas editoras bastante inclusivas no Brasil que se abrem facilmente para novos escritores. Acontece que funciona assim: você paga, eles te imprimem e te distribuem e acabou. Tem editoras nesse nicho que publicam uns 50, 100 livros por ano. O lado ruim de algumas dessas é que elas não se dedicam ao conjunto da obra do seu livro e não há, nem por cima, uma consultoria literária p’ra aparar com mais atenção as arestas de um texto. Você que bote seu livro debaixo do sovaco e vá vendê-lo e você que fique atento também para que o conteúdo saia sem erros e o projeto gráfico agrade.

Há, porém, em menor número, editoras incríveis que optam por publicar uma quantidade menor de livros por ano, p’ra se dedicar melhor ao trabalho gráfico, de identidade visual, de revisão e ao conceito de um livro. A Editora Nós, a Patuá e a Letramento são exemplos disso, de um trabalho mais qualitativo e mais dedicado.

Publicar de forma independente tem seu lado bom. Primeiro, porque é uma forma de se lançar ao mundo e segundo porque é você que cuida da identidade visual, da revisão e tem o controle e a possibilidade de que o livro saia como você quer. Como eu gosto de mexer nessa questão de identidade visual, p’ra mim é um processo prazeroso, mas entendo que uma editora séria pode ajudar um escritor a crescer e a filtrar alguns vícios. Acho bonita a possibilidade de se lançar ao mundo que ser escritor independente nos permite e isso pode ser link p’ra muitas coisas, inclusive p’ra ser publicado por uma editora. Acho que isso vai muito da nossa necessidade como escritor e do nosso conhecimento do processo. Acho que vai de escritor p’ra escritor, porque ser escritor independente vai demandar mais movimentos. As ferramentas que estão disponíveis hoje permitem a um escritor independente fazer um trabalho qualitativo e apresentá-lo com conceito e beleza.

Quais foram os seus principais desafios nessa jornada?

Acho que o grande desafio dessa jornada é exatamente o mostrar o seu trabalho. Escrita é uma coisa muito subjetiva e como ela vai ser vista também é. Acho que mora aí o maior desafio dos escritores independentes: achar os caminhos. Como a escrita é algo, de certa forma, novo p’ra mim, eu ainda estou com um mapa na mão tentando me achar.

E as maiores conquistas?

P’ra mim as maiores conquistas foram as conexões. Fiz muitos novos amigos depois que a escrita passou a fazer parte da minha vida. Essa troca inspira. Outra grande conquista foi achar prazer nisso. A escrita, por mais que ainda seja um desafio p’ra mim e por mais que eu me veja longe do tipo de texto que quero escrever, me dá prazer. Quando olho para os números dos estudos que elaboro e p’ras palavras dos textos que escrevo, por mais que ainda me julgue muito aquém como escritor, é para as palavras que olho e digo: “quero fazer isso até o final da vida!”. Os números não me desafiam tanto mais, depois de vinte anos, mas a escrita me desafia, me demanda novos movimentos e novos olhares.

Que escritores nacionais e independentes você admira e recomenda?

O Medium, ferramenta que muita gente não conhece, me fez conhecer pessoas incríveis. Admiro muito a Paula Gomes, pelo jeito ímpar de escrever e pelo jeito de construir o storytelling com umas sacadas muito legais. Admiro também a Jordana Machado, que também tem uma forma ímpar e peculiar de escrever e que tem uma base clássica muito boa que ela mescla com uma linguagem mais do dia-a-dia . Tem a Raquel Carvalho, que escreve crônicas muito bem estruturadas e geniais, a Gabi Favarini, que tem uma maneira bem característica e ritmada nos textos dela e tem a Dayanne Dockhorn, que tem textos bem construídos com uma boa carga emocional. Nem todas elas publicaram livros ainda, mas creio que é questão de tempo. 

É graças ao Medium, eu acho, que essa entrevista se tornou possível também, porque foi por lá que eu conheci a Regiane Folter. Dá p’ra dizer que o Medium aponta bastante p’ro futuro da literatura. Admiro demais também a Thaís Campolina, que além de escrever e ter publicado recentemente um conto na Amazon, faz um trabalho muito bonito de leitura coletiva e resenha de livros. Descobri muitos autores por causa do trabalho dela. Isso mantém a chama do amor pela escrita acesa e desperta novos leitores numa literatura que tem se feito nova. Tem a Marina Yukawa por lá, que escreve contos, mas já foi publicada por editora. Acho que essas pessoas fazem parte disso que chamo de nova escola de escrita, que têm trazido não só uma nova maneira de escrita, mas um novo perfil de leitor e um novo movimento de gosto pela literatura. Há uma colheita vindo por aí a longo prazo.

De autores nacionais, eu tenho indicado p’ra todo mundo a Aline Bei e a Mariana Salomão Carrara. Me amarro na escrita da Ana Martins Marques. Ultimamente estou morando nos livros dela. Dos clássicos, eu gosto muito da Adélia Prado, tenho relido Carlos Drummond de Andrade e me interessei tardiamente – mas nunca é tarde – por Fernando Pessoa.

Quais são as suas 3 dicas de ouro para quem está começando?

A primeira é não desistir. Fontes de inspiração são inesgotáveis, mas tem dias que pingam e tem dias que jorram. Espere e fique atento que ela virá. Hoje em dia é muito fácil a gente desistir, porque ter um público pequeno nos sinaliza que não estamos sendo vistos. Não desista do pequeno público, porque toda contagem começa com 1.

A segunda é não ter medo de errar. Nunca nos cai uma fórmula pronta que nos entregue encaixotada um estilo de escrita que flua. Antes de achar sua forma de escrever, vai ser normal você errar, experimentar, ler e morar num texto ou ler e se afastar. Acho que escrever está mais para processo do que p’ra evento. Não tenha medo de experimentar e filtre as críticas e as autocríticas. A gente tem mania de ler numa crítica que a gente não é bom, quando uma segunda lida pode nos mostrar que o que uma crítica diz mesmo é que tem espaço p’ra melhorar. Sempre tem.

A terceira é: não tenha vergonha de se mostrar ao mundo. Até p’ra fazer um filtro da qualidade do que a gente escreve a gente precisa ser lido. Ser lido, por mais que a gente se sinta inseguro quanto ao que escreve, pode melhorar a qualidade do que a gente escreve. Se você não se mostra, pode ficar a vida toda com um ponto cego, sem conseguir enxergar melhor o que você precisa melhorar. 

Quais são seus planos para o futuro como autor independente? Próximos projetos em vista?

Eu estava envolvido num projeto de escrita coletiva, que está pausado por enquanto. Agora que tenho sido muito alimentado pela poesia, estou trabalhando num livro de poemas. Quando escrever sessenta poemas que minha análise duvidosa e nada experiente diga “tá bom!”, eu vou publicar.

Por onde podemos acompanhar o seu trabalho?

Escrevo frequentemente no Medium. Recentemente passei a fazer parte da equipe de poetas que escreve no Portal Fazia Poesia. Escrevo lá e no perfil pessoal também. Tenho postado recentemente artes com poemas meus no meu Instagram.

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