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A dedicação da escritora Thaís Campolina

O amor da Thaís Campolina pela literatura é impressionante. Ela escreve, lê, incentiva a leitura para outras pessoas e colabora com vários escritores e esritoras em projetos diversos. Para qualquer lugar que olho, sempre vejo a Thaís recomendando livros e autores ou compartilhando seu próprio processo criativo e suas inspirações.

A Thaís foi uma das primeiras pessoas que leu e resenhou meu livro. Já li outras resenhas escritas por ela e também suas próprias histórias, tanto as que publica lá no Medium como o conto pandêmico (excelente, por sinal) que lançou no finalzinho do ano passado pela Amazon. A visão crítica e otimista que ela coloca em tudo que escreve me inspira, assim como essa entrevista, com a quel tive a oportunidade de conhecer mais do que pensa, busca e valoriza essa autora companheira. Espero que você se inspire também.

Como você se chama e a que se dedica quando não está escrevendo?

Meu nome é Thaís Campolina e eu estou vivendo um momento de transição, tentando, de alguma forma, largar o Direito de vez. Por isso, tenho buscado profissionalizar minha carreira literária. Lancei um site só meu no fim do ano passado e também um apoia.se, além de ter publicado um conto avulso como ebook na Amazon, o “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija”.

No momento, estou fazendo uma pós-graduação em Escrita e Criação na Unifor, investindo em projetos próprios, como a curadoria e mediação do meu clube de leitura Cidade Solitária e a edição de meus livros, e sonhando com um mestrado para pesquisar a leitura, porque me apaixonei completamente por clubes do livro e a ideia do ato de ler como uma atividade criativa desde que comecei a mediar o Leia Mulheres Divinópolis quase dois anos atrás. Ah, tenho tentado me colocar no mundo virtual também como produtora de conteúdo sobre literatura, especialmente no Instagram.

Quando se descobriu escritora?

Sempre fui leitora e isso me influenciou a gostar de contar histórias. Em algum momento, eu percebi que se eu escrevia tanto, eu talvez fosse escritora, mesmo que não tivesse ainda um livro publicado. Hoje me assumo assim, apesar de me sentir uma impostora ao falar isso em voz alta ou em público, mas até que digitando em um arquivo no drive vai fácil.

Sobre o que você escreve? O que te inspira?

Me inspiro no cotidiano, em tudo que acontece quando a vida passa. Minhas veias pertencem aos “causos” e as artérias ao mundo político, tendo mesclar isso de maneira natural, crítica e às vezes bem-humorada, nem que seja pela via da ironia. Gosto de escrever a partir do simples, do banal, dos dilemas, alegrias e bobagens que não escapam da vida da maioria de nós, mesmo quando eu experimento e mesclo isso com mundos um pouco menos realistas. Acho que a minha vibe literária é meio “o pessoal é político” com tendências a “se eu não puder dançar, não é a minha revolução” e um mucado de incoerência no caminho, porque somos todos humanos, logo sistemas complexos com mais camadas que toda uma plantação de repolhos.

Como você descreveria o seu estilo de escrita?

Não sei. Acho que gosto de experimentar. Tem uma frase do Rubem Alves que diz que um livro é um brinquedo feito com letras. Para esse autor, ler é brincar. Essa é uma perspectiva que me agrada também como escritora, o ato de criação pra mim vem dessa vontade de explorar todas as possibilidades do lúdico e por isso explorar temas, formatos e estruturas é tão importante pra mim.

No geral, prefiro sempre escrever a partir de narradores personagens. Gosto da primeira pessoa, de brincar que estou na cabeça de um ser que não existe a não ser na minha imaginação. Gosto de fazer humor também, de falar de banalidades, do que parece próximo, por isso geralmente escrevo evocando a oralidade e também a memória. Falando em memória, de certa forma acredito que meu tema principal seja o tempo, porque ele é o tecido da nossa vida, como bem disse Antonio Candido, e serve como base de tudo que eu já fiz ou gostaria de abordar.

Seguindo essa linha, posso dizer que descobri nos últimos anos que um dos meus assuntos “preferidos” é morte e a ansiedade do medo de morrer, temas totalmente relacionados com reflexões relativas ao tempo, mas eu tento abordar o tema de maneira mais próxima, natural e talvez realista, uma busca que surgiu após eu entrar em contato com a Caitlin Doughty e minha amiga Camila Freire.

Às vezes bate a insegurança e eu começo a pensar que queria ser mais profunda, criar frases mais bonitas, emular uma certa seriedade linear, principalmente tendo em vista alguns dos temas que me interessam, mas, sei lá, não pareceria eu. No geral, tendo a ir pela veia do humor, da ironia, mesmo quando quero causar incômodo. Pelo menos até então tem sido assim, mas eu não sei como vai ser quando eu tentar me aventurar em uma novela ou romance, por exemplo.

Onde você publica seus textos?

Cresci, no sentido de idade mesmo, escrevendo em blogs e redes sociais e continuo fazendo isso. Tenho perfil no Medium, site de autora, newsletter, às vezes mando alguns textos para revistas virtuais, coletâneas físicas, concursos e já até explorei o Sweek e o Wattpad. Sonho com um livro só meu publicado e tenho trabalhado em alguns manuscritos, apesar de ainda idealizar muito o objeto livro e essa idealização tender à autossabotagem. 

Em dezembro de 2020, sem saber o que fazer com um conto maiorzinho que tinha escrito em maio e junho do mesmo ano e inscrito em várias seleções sem obter aprovação, decidi lançá-lo avulso na Amazon. Foi um ato impulsivo? Foi, mas valeu a pena. Agora me sinto mais séria, profissional e competente, quase uma pessoa de verdade. 

Quais são as suas principais referências?

Minhas referências não necessariamente evocam o que eu gosto de escrever, elas são mais relacionadas com a maneira que eu vejo a leitura do que com a escrita, apesar de inegavelmente influenciar o meu desejo de colocar a mão na massa. E essas referências têm se expandido, incluindo colegas e professores da pós-graduação ou mesmo de oficinas ou amizades. É um mundo de gente, sabe? Mas acho que posso falar em Ana Martins Marques, Wislawa Szymborska, Angélica Freitas, Mariana Enriquez, Samanta Schweblin, Lygia Fagundes Telles, Ruth Guimarães, Miranda July, Elena Ferrante, Ayòbámi Adébáyò, Simone de Beauvoir, Olivia Laing, Alison Bechdel, Vivian Gornick, Hilda Hilst, Antônio Prata, Natalia Borges Polesso, Mariana Salomão Carrara, Ana Squilanti, Caitlin Doughty, Socorro Acioli, Ana Maria Gonçalves, Itamar Vieira Jr., Machado de Assis, Graciliano Ramos, Primo Levi, Scholastique Mukasonga, Clarice Lispector, Toni Morrison, Alice Walker, Adrienne Rich, Audre Lorde, Bernardine Evaristo e mais um monte de gente. Inclusive gente que nem li ainda, mas que tudo indica que vou amar, tipo a Zadie Smith, a Djamilia Pereira de Almeida, a Rosa Montero, a Silviana Ocampo, a Deborah Levy, a María Fernanda Ampuero, a Natércia Campos e o Stênio Gardel. 

Como é ser escritora independente?

É aceitar a insegurança como parte do processo. É tentar aprender a lidar com isso o tempo todo. É botar a cara a tapa, mesmo. E fazer muitos amigos no caminho, porque eu sou uma romântica que acredita sempre no poder da conexão, do diálogo, da troca. 

Quais foram os seus principais desafios nessa jornada?

Já citei insegurança hoje? 

Eu duvido muito que sou escritora ainda, que tenho algo a oferecer, que o que eu faço não é completamente amador. Acho que ainda tenho medo de ser considerada pretensiosa por me considerar escritora. Fora isso, destaco a minha dificuldade de me organizar “sozinha”.

E as maiores conquistas?

As amizades que fiz, as pessoas que conheci, as trocas que a minha escrita tem me trazido. Fora isso, acho que dá pra destacar ser paga pelo meu trabalho. Toda vez que consigo ser paga pela minha escrita ou leitura crítica, eu sinto meu desejo como algo mais real, sinal de uma cabecinha colonizada pelo capitalismo sim, mas também de uma pessoa preocupada com o tanto que tudo relacionado com cultura é tratado somente como hobbie, sendo que é muito mais do que isso; é trabalho, mesmo que envolva muita vontade, amor e essas coisas todas.

Que escritores nacionais e independentes você admira e recomenda?

Agora você quer me pegar, né Regiane? Eu esqueço um nomezinho aqui por pura distração e pronto, acabou. Admiro você, Paula Gomes, Igor Damasceno, Nina Rocha, Amanda Magalhães, Letícia Miranda, Fernanda Charret, Erica Martinelli Munhoz, Dalva Maria Soares, Olivia Gutierrez, Carina Gonçalves, Isabelle Chagas, Glau Nascimento, Carla Soares, Camila Freire, Luizza Milczanowski, Maíra Valério, Carol Bataier, Guilherme Aniceto, Bruno Moura, Ana C Moura, Dayanne Dockhorn, Guímel Bilac, Mila Teixeira, Carol Marques e um mundo de, principalmente, mulheres fodas que me fugiram o nome agora, porque eu sofro de branco nessas horas.

Quais são as suas 3 dicas de ouro para quem está começando?

A minha dica principal é a de se cercar de outras pessoas com quem você possa trocar sobre as aflições e alegrias de escrever. Essa comunidade é fundamental, a gente ganha muito mais força junto do que separado. Fora isso, acho que ler é importante, tanto o que já é clássico, quanto o que acabou de ser lançado. E, por último e não menos importante, considero que é essencial tentar acreditar em si mesmo e abraçar o processo de escrita como algo que envolve vontade, trabalho, pesquisa, desenvolvimento e também prazer, porque ninguém é de ferro. Nenhum escritor nasce pronto, estamos nos aprimorando e tudo bem.

Quais são seus planos para o futuro como autora independente?

Quero conseguir lançar meu livro de poemas logo e quero tentar conseguir o apoio de alguma editora independente nesse processo. Ele já esteve pronto, já voltou para o forninho, ficou pronto de novo e segue nessa inconstância. Talvez o que chamei de um sejam dois. Veremos.

Quero voltar para meu projeto de livro de contos também, em desenvolvimento, mas parado desde setembro, e talvez fazer uma coletânea de crônicas só pela diversão, sem estresse, simplesmente selecionar minhas preferidas, a maioria já publicada, e mandar ver na Amazon. Apesar da loucuragem dessa última possibilidade, no geral o meu plano estratégico e racional envolve focar em editais de cultura. 

Por onde o público pode acompanhar o seu trabalho? Redes sociais, etc?

Meu trabalho está concentrado principalmente no meu site. Fora isso, dá pra me acompanhar pelo Instagram, Medium, Twitter, Apoia.Se e Newsletter. Na real, até twitch agora eu tenho, pretendo usá-lo para sprints de leitura do Clube Cidade Solitária e talvez propor alguns exercícios de escrita bem na vibe oficina, enquanto desenvolvo a versão séria que vou oferecer no futuro. 

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