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Dez regras de ouro para se tornar um escritor

Reduzir a escrita a seu processo é uma idiotice. A ideia por trás disso é a de que qualquer pessoa pode escrever uma obra literária o que, em tese, é verdade. Assim como é verdade que qualquer pessoa pode ser um médico, um astronauta, um músico, um pintor etc. 

Mas assim como essas outras profissões têm seus rituais e processos, um médico, por exemplo, não operaria um paciente apenas seguindo um modelo prévio ou criando um mapa mental ou seguindo dez regras de ouro ou mentalizando o que deseja ou ouvindo Joy Division ou fazendo playlists ou criando painéis com visualizações dos resultados esperados.

O escritor que foca apenas na ritualização do processo de escrita é um canalha. Ou está escondendo o jogo ou vendendo uma fantasia de escritor, com máquinas de escrever bacanas e sessões de yoga transcendental. 

Porque toda técnica, ainda que auxilie na organização do trabalho, não é tudo. Estendendo a comparação com o médico, não importa como os bisturis são organizados na hora da operação se o doutorzinho não passou por anos e anos de estudo e treinamento. 

O escritor tem que se preparar para ser um escritor e, ainda que não haja instrução formal ou objetiva para tanto, não há também processo de escrita que vá transformar alguém que sabe escrever num escritor do dia para noite. 

Não há fórmula milagrosa, infelizmente. A descrição da rotina de um escritor é uma curiosidade, assim como seria curioso conhecer a rotina de um cirurgião. Não é tudo. 

É lindo e é sua prerrogativa criar um ideal da rotina de escritor para você, mas não venha me vender ou para os incautos essa palhaçada. 

(Nota: agora que vi aqui que tem a opção de desabilitar os anúncios que tenho recebido de como me tornar um escritor. Esqueça tudo o que eu disse.)

Marcelo Mendes. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Auckland (NZ), com trabalho sobre Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Mora em Brasília, onde é pesquisador independente, revisor de texto e isolado social. Publicou o livro “Poesia Brasileira e Outras Histórias” (Design, 2010), além de várias artigos em revistas acadêmicas de todo mundo. Foi finalista do prêmio Luiz Vilela de Literatura (MG) em 2004, além de ter sido selecionado para o prêmio Elisabete Anderle de Literatura e Cultura (SC) em 2009.

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