Categorias
sobre escrita

Autoficção

Sempre que eu digo que trabalho com literatura alguém vem me contar uma história ótima que gostaria de escrever, ou até fazer um filme, para ver se eu acho a ideia boa. O que eu sempre respondo, em parte para ser educada, em parte porque acredito mesmo: toda ideia pode virar um bom texto se você souber usar as palavras certas.

A maioria dessas histórias, no entanto, jamais vai ser escrita. Nós, que nos aventuramos na escrita sabemos que escolher as palavras certas não é coisa fácil, é por isso que mesmo cheias de ideias, a maioria das pessoas não escreve. Mas o que me chama atenção é outra questão: sempre que eu tenha a oportunidade (e o interesse) em conhecer as pessoas mais a fundo, sempre, eu entendo de onde vieram as histórias. Isso é ainda mais evidente quando a pessoa não é escritora.

Pode ser fantasia sobre unicórnios alados no Alasca, em algum momento, em alguma conversa despretensiosa eu vou ter aquele momento de “ah, então foi daí que saiu aquela história que você queria escrever”.

Porque, no fundo, tudo é autoficção. Sempre que eu escrevo uma história, eu ponho nela a minha visão de mundo, a minha bagagem, o meu repertório cultural, do momento que eu estou vivendo na sociedade em que pertenço. O texto, querendo ou não, é sempre um reflexo de nós. Claro, o escritor mais habilidoso pode distorcer seus argumentos para que o leitor chegue às suas próprias conclusões. Claro também que o escritor menos habilidoso pode não se fazer entender, porque não domina a técnica. Isso tudo, no entanto, também é reflexo dos acúmulos de quem escreve, não é mesmo?

Eu tinha um professor de escrita criativa que dizia que todo escritor reescreve sempre a mesma história. O cenário pode mudar, as circunstâncias podem mudar, mas tem algo no centro do texto que é o umbigo do próprio autor. Ou, nas palavras de outro grande escritor, é a questão essencial (do personagem).

Longe de mim querer formular teoria literária aqui, mas da minha parte, reconheço em todos os meus textos de ficção uma angústia que é só minha. Mesmo quando falo sobre experiências que eu não tive como sair do armário (no conto O Elevador, da última edição da subtextos), eu empresto à personagem angústias minhas para que ela possa usar na sua jornada. Por outro lado, tenho contos que são quase uma narração de momentos da minha vida. Jamais contarei quais e pouco importa, pois, é tudo autoficção.

*Autoficção é um termo utilizado na crítica literária para autobiografias ficcionais. Utilizei o termo com certa liberdade poética.

2 respostas em “Autoficção”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *