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prosa poética

Abstinência

Essa distância, essa saudade, machucam, dilaceram, esmagam, rasgam, pisoteiam, derrubam e entorpecem. Eu percebo elas agarradas como um peso nas minhas costas, que eu levo de arrasto para todos os lugares. Às vezes esqueço delas, mas as duas continuam ali. A espreita.

Tão comigo quando levanto, quando pego o celular, quando lavo a louça, quando assisto algo sozinha, quando vejo algo engraçado na internet, quando escovo os dentes, quando deito na cama, quando rolo pro lado e meu corpo só encontra o vazio.

Pensei que fosse diminuir com o tempo, se eu ignorasse, mas elas só crescem e crescem, ocupando cada vez mais espaço dentro de mim, dentro das paredes do quarto e da casa. Elas me fazem pensar que tá tudo diferente, que tô perdendo muita coisa e quando eu voltar, vai tá tudo revirado. Destruído. Que eu vou perder o meu lugar.

Achei que já tava acostumada com elas presentes, de tempos em tempos, mas a verdade é que elas são mais cruéis do que eu achava. Me chutam na barriga, nos olhos e no peito. Fica difícil respirar. Fica difícil saber se o coração não desaprendeu a bater. Elas roubam pra si a pouca energia que sobrou nos meus tendões e músculos.

Conto os dias no calendário eletrônico, esperando que esteja perto. Só que ainda faltam semanas que parecem mais meses com dias infinitos. Janeiro durou quase um ano e eu só espero que fevereiro seja um pouco mais gentil. A distância e a saudade tão me fazendo esquecer de muita coisa: rosto, cheiro, voz e gestos. Parece um borrão enorme na cabeça quando eu me forço a lembrar.

Tô desacostumada. Fora do meu ritmo, da minha rotina e da minha ordem natural das coisas. Eu olho pela galeria de fotos e me dou de cara com a saudade que não conhece os seus limites. Olho pro mapa do celular e a quilometragem parece maior do que nunca. Eu olho pra dentro de mim e sinto o cômodo cheio, mas chamando por alguém que não chega.

Continuo seguindo meus dias como sempre fiz. Tentando segurar as lágrimas e as feridas abertas. Com apenas uma única certeza: a gente ainda vai se esbarrar de novo. Mesmo que aquelas duas, no fim, me deixem em pedaços.

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