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Quando o mar a tomou

As flores rubras se destacavam em meio às brancas que circundavam todo seu caminho, dando a ela ideias que a deixava tomada de uma vergonha aprendida. Mas, aquele vermelho irresistível se misturava ao cheiro da mata silvestre e toda aquela paisagem de pura solidão a inundava de felicidade.

Chegou ao seu destino e se encantou com a maré que recuava despindo seus bancos de areia a se mostrarem por quilômetros, mar adentro. A praia estava nua. Enfeitada por barcos que repousavam. A orla não tinha um só ser humano. Era como se aquela cidade inteira, de ponta a ponta, tivesse sido dada de presente para ela. Agora, tomada pelo cheiro enigmático da praia a vicejar desejos contidos, resolveu se dar para ele: o mar.

Deixou seus poucos pertences no cestinho da bicicleta, recostada em uma jangada e, somente com roupas de banho, foi caminhando devagar. Apreciava a brisa que acariciava seu rosto, as águas mornas a bater nos seus joelhos e, à medida que foi se distanciando, a profundidade continuava a mesma. Subiu em um banco de areia e avistou a orla tão pequenina, tão efêmera.

“Como podia, em plena manhã de sexta-feira, o mar ser todo dela? Fiel ao seu amor?” Ela pensou cheia de desejo. O vermelho da sua lembrança recente se misturou à visão do imenso azul. Aquela jovem nunca tinha se dado a nenhum ser do sexo masculino. Sua concupiscência era doada às mulheres. Sempre teve essa consciência, desde criança. Mas, por que não experienciar uma nova entrega, uma nova forma de amar?

Deitou-se em uma poça d’água um pouco mais profunda, apoiou sua nuca em um macio aglomerado de algas marinhas, olhou para o céu límpido e também nu, tal como ela estava agora e se deixou ser tomada por Poseidon: as ondas tocavam seu sexo e seu corpo exibia uma perfeição que ela nunca tinha notado. Agora ela se via linda como uma semideusa e, enquanto acariciava a si mesma de infinitas formas, enfim declarou: “sou tua!”, a maré baixou completamente.

Agora ela carregava dentro de si o mais absoluto segredo. A manhã onde ela esteve com o deus dos mares foi uma das mais felizes de sua vida. Ao findar o prazer deles dois, levantou-se solene e, como uma menina peralta, se pôs a correr o mais rápido que podia e gritou cheia de si: “Ele é meu! Ao menos hoje, ele é meu!”

9 respostas em “Quando o mar a tomou”

Gratidão imensa por contribuir com esse projeto lindo. Que mais pessoas a tomem como exemplo.
Abraços literários a todos que fazem parte da construção do site/blog da Escritor Brasileiro.

Adoro lê textos os quais imagino tudo. E esse texto realmente me fez visualizar e também sentir que sou do mar, que sou amada!!! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

Um texto dedicado à nós mulheres e nosso direito de viver nossa sexualidade como símbolo de nosso poder infinito de sermos fêmeas legítimas e selvagens, fora dos padrões castradores de nossa sociedade machista.
Gratidão, Jessy.

É uma artista nata que sempre gostou de poesias, versos e textos literários. Parabéns por se permitir ir ao encontro da subjetividade humana com a leveza do SER MULHER!

Meu caro amigo.
Saiba que ter sua admiração por minha arte de pintar o imaginário pelas palavras, me faz ter a certeza que estou no caminho certo.
Gratidão

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