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Papo de Elevador

Dois vizinhos de terno saem de seus apartamentos com suas maletas em mãos e trancando as portas logo atrás de si. Caminham em silêncio e um deles chama o elevador enquanto o outro agradece com um aceno de cabeça e um sorriso

            – Bom dia, vizinho.

            – Bom dia, consagrado.

            – Como vai?

            – Vou bem, e tu?

            – Ah podia estar melhor, mas não posso reclamar.

            – Cada dia é uma dádiva, não é o que dizem?

            – Verdade.

            – Pois é.

            …

            – O trabalho vai bem?

            – Hoje vou ter uma reunião importante, então estou torcendo para que tudo dê certo.

            – Bah, boa sorte companheiro.

            – Obrigado, vizinho.

            – Não há de que.

            – E tu?

            – Bom, cada dia é uma aventura, tanto boa quanto ruim. Mas ultimamente tem sido mais das boas.

            – Que maravilha.

            – Mas no fim das contas o que importa mesmo é poder ter um teto sob a cabeça e comida na mesa.

            – É mesmo.

            …

            O elevador se abre para os dois vizinhos de terno e um depois do outro eles entram no elevador de cabeça baixa. Aperta-se o botão do térreo e começam a descer.

            – Se me permite perguntar, o que faz pra viver?

            – Sou arquiteto e monto projetos pra uma empresa.

            – Bah, sabe que eu já quis ser arquiteto? Era meu sonho quando guri.

            – E por que não seguiu?

            – A vida tomou outros rumos, entende? Quando dei por mim os anos andaram depressa demais.

            – Sinto muito.

            – Faz parte.

            …

            – E agora, o que faz?

            – Tenho um pequeno negócio próprio como gigologista.

            – Quer dizer ginecologista, não?

            – Não, gigologista mesmo.

            – E o que diabos seria isso?

            – Bom, de maneira grosseira seria um especialista em negócio de gigolôs, mas eu prefiro chamar eles de acompanhantes de luxo.

            – Não é o mesmo que cefetão?

            – Cafetão promove a prostituição.

            – E isso não é prostituição por acaso?

            – Se não tiver sexo, não.

            – E não tem?

            – Não. Sou um homem de negócios honesto, se quiserem, só por fora. Sem vinculo com a empresa.

            – Como funciona daí esse tal negócio?

            – Eles acompanham mulheres solteiras, viúvas e/ou divorciadas e lhes dão a experiência de um encontro romântico. O preço depende do horário, local e data.

            – Por que não as casadas?

            – Maridos ciumentos são um perigo pro negócio e pra vida dos meus funcionários.

            – Entendi.

            …

            – Só mulheres?

            – Às vezes homens também, mas é menos comum.

            – Pouca procura?

            – Tipo isso.

            – E como faz pra contratar?

            – Só ligar pro número nesse cartão.

            – Ah.

            – Fica pra ti, cortesia minha.

            – ?

            – Nunca se sabe.

            O elevador se abre e os dois vizinhos de terno saem seguindo caminhos opostos. Quando o gigologista está de costas para o arquiteto, esse olha para o cartão preso entre os dedos e guarda no bolso interno do paletó.

8 respostas em “Papo de Elevador”

Que legal Raquel me levaste a imaginar , detalhadamente a cena e os dois conversando…. e fiquei pensando como teria sido o final: será que o arquiteto usou o cartão???😂😂

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