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No seu céu

Havia a respeito dele muitas perguntas e poucas certezas. Trabalhavam juntos há cinco anos no financeiro de uma empresa e ele nunca cedia à gelada de sexta-feira com a equipe:

— Anjo — murmurava ela, que se via como alguém (ou até mesmo ninguém), satisfeita por tê-lo nas ideias perfeitas e nos sonhos impossíveis.

Eram namorados. E à noite, os seus dedos e mente o possuíam.

Um dia, lembrando dos sonhos que a deixavam com as mãos inundadas de paixão, foi pega por ele mordendo os lábios, enquanto admirava a sua realidade até então intangível. Desconcertada, desviou o olhar. Ele, para a sua surpresa, sorriu.


Algumas horas mais tarde repousava em sua mesa um bilhete pequeno, chamando-a para assistir a mais nova comédia romântica estreada no cinema.

Por que não?

A filosofia diria para permanecer nas ideias perfeitas e eternas. A sua carne e a palpitação presente entre as pernas optaram pelo real. Encontraram-se no estacionamento da empresa. Abraço. Beijo no rosto. 
Ele a puxou com força, sem cerimônia, e sussurrou em seu ouvido:

— Olha… Eu a respeito. Mas você sempre me deu um tesão da porra.

Seria mais um delírio onírico?

Idealizações tolas. Certezas impossíveis. A fantasia tem desejos e até os anjos possuem pecados mortais. Ela sorriu, sentindo a umidade imediata na roupa debaixo. Não podiam esperar.

Encontro de línguas. Beijos molhados. Ele no banco do motorista; ela por cima, conduzindo a comilança.
Calcinha para o lado joelho no freio de mão, roxo, do vai e vem das pernas. 
Misturaram-se: Corpo. Alma. Líquidos. Suor.

O carro balançando e os vidros embaçados seriam uma denúncia. Não importa.

Eles pararam. Avançaram. Transgrediram.
Estavam acima do tempo e do espaço!
Gozaram.
A moça desaguou desejos que nem sabia serem possíveis.
O rapaz, satisfeito, rindo, vaidoso e incrédulo, olhou-a por inteiro e disse soletrando:
– A-ma-nhã tem mais!

Eles gargalharam. Ela foi embora sozinha, por opção, maldizendo Platão, pernas bambas de quem gozou no seu céu e no seu inferno.

Entrou em casa, tomou um banho, agarrou-se ao vinho e pôs um disco:
“Fazendo tudo de novo e dizendo SIM à paixão, morando na filosofia.”

2 respostas em “No seu céu”

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