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NÃO SER, NÃO EXISTIR.

Abriu os olhos e uma Guernica tamborilava na sua cabeça no auge do bombardeio alemão. Corpos caíam feito chuva de verão nos noticiários diários, atormentando seus dias acordados e há muitos dias também atormentando o seu sono. Em cada morte, ele morria mais um pouco. Se forçou a levantar da cama, apesar das dores em todas as articulações e músculos, e foi lavar o rosto buscando aliviar a angústia. Tomou uma aspirina, colocou a água para esquentar e preparar um café bem forte. Sentiu que aguardava a chegada dela, no entanto não havia ela, apenas ele. Não havia mais razão para ter um alguém, pois nem consigo mesmo sentia o prazer estar, muito menos alguém estranho. Acendeu um cigarro, pensou em sair para ver pessoas, mas não queria ver pessoas. Existiu um dia, porém há algum tempo não conseguia mais ser. Vagava errante feito um barco perdido sem rumo, encalhando em muitos canais de Suez. O país em que habitava não permitia mais sorrisos, mas a agonia jorrava em cataratas mais potentes que o Iguaçu. Tragou o cigarro e lançou uma espessa fumaça branca que cobriu a cozinha.

Com o café em mãos, ligou a TV e sentou diante de um programa que não o atraía, no entanto via as imagens sem escutar o som e desejava estar pelas ruas de Barcelona nos tempos dos anarquistas, caminhando pelas ruas lotadas de pessoas felizes, sem reis, sem deuses e sem mestres. Bebia o café e pareceu existir um sorriso no canto da boca, pois experimentava estar caminhando pela Rambla de camisa aberta, torso quase todo amostra, o vento mediterrâneo soprando em seus cabelos e livre, apenas livre.

Voltando a si, a vida não fazia muito mais sentido. Não parecia valer mais que uma bijuteria velha jogada num porta-jóias, surrado pelos anos de esquecimento. Ele era, naquele instante, o esquecimento em pessoa, um fardo que nem ele mais conseguia carregar. Do que valia estar, se não existia nem para ele e nem para ninguém? Era pesar os prós e os contras e perceber que não existiam prós e nem contras, não existia nada além de um vazio existencial que nem Sartre poderia explicar. Apesar de acordar todas as manhãs, seu corpo e sua mente pareciam estar fora deste espaço-tempo e havia se refugiado num planeta qualquer de uma galáxia distante e que nem observada pelo próprio ser humano havia.

Terminou o café, sua cabeça ainda explodia num festival pirotécnico de coisas vazias, seus pés pareciam pisar numa nuvem de poeira que viajara por vários quilômetros direto do Saara. Seu peito apertava como se amarrado em nó de marinheiro e os olhos se enevoaram como se houvesse um fog londrino. Não obstante querer levantar, no exato instante do querer, abruptamente, a luz se fechou diante dos olhos e o universo se desfez num desencontro de átomos.

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