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Não era para ser assim, tanto e tão pouco

Não tem amor que resista a tanto. É como cuidar de planta, sabe? Não pode ser pouca, nem muita água. Algumas gostam bastante de sol, outras de sombra. Mas para tudo há a medida certa. Ou há a morte certa. É assim que funciona, Maria. Amor é jardim.

A gente se apaixonou três meses antes da pandemia chegar ao Brasil. Os dois – já experientes e machucados, experientes em machucados – tentamos fugir. Um do outro e ambos do sentimento. É claro que não sabíamos do ano distópico que vinha pela frente. A gente tentou fugir porque se avizinhava o carnaval e, bem, nunca se sabe, né? Abre alas e tal. Mas o samba já tocava ritmado dentro do peito: tum-tum-tum-tum, tim-tim-tim-tim. Ela dançou. Eu dancei.

A paixão desperta umas sensações estranhas no corpo. É como uma doença grave. A boca seca, as pernas falham, o coração dispara, falta ar. Às vezes tem febre. E a gente sua, sua, sua. Você já não era mais sua. Você era minha. E era bom.

Li o artigo de um sociólogo que dizia ter a pandemia inventado pouco, mas acelerado muito do que estava por aí. Sobre o resto das relações sociais eu não sei dizer. Mas, no meu universo, ela acelerou tudo.

Eu nunca havia morado com ninguém. E eu nem pensava nisso. Mas eu também nunca tinha gostado de alguém tanto ou tão rápido como de você, Maria. E nunca isso pareceu tão lógico e necessário. E de alguma maneira magicamente misteriosa parecia que eu tinha encontrado a pessoa certa na hora certa. Eu nunca acreditei nisso. Até o dia em que acreditei.

E cá estamos nós, um ano e meio depois: um nó.

Desperto e não levanto. Tiro uns minutos do relógio, mas não adianta. Nunca adianta. O tempo parou e, ainda assim, nosso tempo acabou.

Dormi bem, mas acordo cansado. Penso nos acordos tantas vezes feitos a noite e repetidos de dia. Era mesmo para ser assim, com tantas regras, com tantas velhas normas no tal do novo normal?

Quero voltar a dormir, porque aqui dentro sempre parece breu. Começou dentro de casa. Agora é dentro de mim.

Não tem mais Carnaval. Não tem mais carne nesta vida. Não tem mais alegria nesta casa. Eu ando em marcha, marchinhas lentas, daquelas do tempo do meu saudoso avô: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Os confetes, todos guardados para o dia das visitas. E como ninguém visita, a quarentena se tornou nossa eterna Quaresma, cheia de promessas e penitências.

Olha, eu não tenho solução para suas necessidades, Maria. Nunca tive. Nunca quis ter. E me considero justo: jamais exigi algo assim de você. Por que você faz isso comigo? Com a gente? Por que a gente teve de ser tudo um do outro tão cedo? Tão tudo?

Eu só pedi sorrisos, Maria. Não é muito. Como são bonitos seus sorrisos! Você sabe disso? Ou eram, eu acho. Eles existiram? Ou eu sonhei? Ou isso agora é que um pesadelo? Acorde-me, Maria. Acode-me. Os sorrisos que eu inventei morreram tão rápido. De morte matada e de morte morrida. De morte rotina.

Mas ouço o som da sua gargalhada ao fundo. Não sei se o fundo da minha memória, ou o fundo do nosso corredor. Parece que com suas amigas você ainda ri, Maria. É isso mesmo? Aí do outro lado da casa ainda tem riso? Por que deste lado só me aparece em riste?

A vida foi tão intensa e brevemente boa ao seu lado, Maria. Mas hoje acordei com aquela sensação de afogamento que desde os treze me aparece de tempos em tempos. Já lhe contei sobre ela, não foi? Habituei-me a ela. Habituei-me a você conhecendo meus segredos. E quando vem esse sufoco, sinto, sei, é tempo de parar e respirar.

Maria, desta vez é você quem me afoga. Com os olhos cheios d’água só consigo pensar como é bom que o atraso foi um alarme falso. O tempo parou e ainda assim nos atrasamos. O tempo vai voltar a andar e não podemos nos atrasar mais.

Sei que você vai embora a qualquer momento. Não a culpo. Nem a mim. Eu não vou mais fingir. E sei que mais dia menos dia você vai cansar também. Não de fingir a mim, pois já perdemos esses pudores. Mas de fingir a si, que ainda há alguma esperança ou qualquer outro sentimento que indique que vale a pena viver por aqui.

E, quando formos, sentiremos falta até desse momento vazio. Sentiremos falta da paz de não mais arder. Sentiremos falta de silêncio quando nossos novos amores ligarem de cinco em quinze minutos apenas para certificarem-se de que continuamos inebriados. Fomos tão presentes e constantes que nunca precisamos disso. Será que foi isso que faltou? Tudo bem. Seja como for. Faz parte de ser gente só valorizar quando perde. E você vai sentir falta do que hoje chama frieza, e logo mais vai entender liberdade. Eu também.

Mas hoje estou cansado. Hoje, gostaria que você fosse de fato. Não aguento mais a sensação de dejà-vu a me constranger os movimentos logo pela manhã, quando você afirma estar indo caso eu não ceda. Ceder tão cedo é muito difícil. Ceder tão tarde é muito difícil.

Confesso: é sempre ótimo quando você volta na manhã seguinte, como pizza dormida e gelada – meia de lágrima/meia de riso. É bom ter você no café da manhã.

E, assim, percebo que sinto falta de você aqui enquanto rabisco meu caderno velho. Você já se demora em vir. Ouço passos. Você já se demora em vir reclamar que não desperto.

Mas não ouso quebrar nosso trato de construir nosso fim com a mesma intensidade que entregamos ao nosso início. E espero cansado de esperar.

A porta está aberta, Maria. Do quarto e da casa. Escolha.

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