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Ensaio

Olá, Escuridão

Dor, superação e pedaços de vidro

Esses dois anos de pandemia plantaram muitas sementes na minha cabeça. Inconscientemente, eu comecei a pensar e refletir mais sobre o meu psicológico e emocional – coisa que eu não fazia antes disso tudo começar. Os assuntos recorrentes são: os meus pensamentos paranoicos e atormentados pelo medo, minha solidão que vai e volta regularmente e o meu espectro que é escondido, cinza e desinteressante. Feio… Atualmente, estou em um lugar escuro da minha vida.

Outra coisa que percebi é que é não apenas eu que estou nesse lugar, a maioria do mundo agora está. Todo dia temos que lidar com alguma ansiedade, algum estresse, algum medo… alguma dor. E infelizmente, não podemos fazer nada a respeito. Sempre enfrentaremos situações dolorosas, enquanto ainda vivermos nessa terra chamada Vida. Porém, eu achei uma forma de superá-las… eu… até sei quem ela é.

Eu a descobri no dia 23 de julho de 2021. Era uma noite como qualquer outra. Nada de novo ou excitante tinha acontecido até agora. Minha mãe estava varrendo o segundo andar – o dos quartos – transpirando mais do que eu jamais conseguiria em uma academia. Meu pai estava preso à televisão – e ao celular dele. A TV havia sido retirada do primeiro andar e colocada ao lado do meu quarto. Minha irmã, provavelmente, estava desenhando ou vendo TikToks.

Eu tinha ido ao meu quarto, celular na mão – ligado a um vídeo do YouTube. Meu propósito era deitar na cama e continuar a maratonar, mas havia algo me impedindo: uma placa de vidro que estava em cima dela. Para caráter de curiosidade, a placa ficava em cima da minha escrivaninha- uma ideia de minha mãe para não sujar a mesa. Eu havia tirado o vidro para tentar um novo método de organização e o lugar mais próximo era a cama, portanto, a coloquei lá.

Ainda desejando me deitar, eu não me rendi a aquele objeto transparente. Minha mente raciocinou e a única solução que pensei na hora foi colocar o vidro no chão, apoiado no guarda-roupa. Logo, peguei em suas extremidades e o levantei. As mãos sentiram o material gélido ao tocar. A cintura gira e então, escuto um barulho alto. Uma das pontas da placa bateu na maçaneta do armário esquerdo, entretanto, nada havia acontecido. O vidro continuava intacto quando olhei, por isso continuei a minha missão. Posicionado na frente do guarda-roupa, era hora de colocar a placa no chão. Meus joelhos dobraram devagar em um agachamento simples que não durou muito tempo. Poucos segundos depois, eu vejo o vidro se partindo em vários pedaços pequenos diante dos meus olhos. Os cacos e a poeira se espalharam pelo quarto. Quando menos percebi, minha mão estava com alguns pedaços, paralisado em uma posição humilhante.

Rapidamente, meu pai veio me socorrer. Eu saí de perto da falecida placa e fui direto ao banheiro porque havia cortes em meus dedos. Três era o número. Eu nem estava sentindo a dor pelos cortes – adrenalina, suponho. Minha mãe estancava o sangue com curativos. Minha irmã segurava a minha mão para os curativos. Uma cena totalmente normal e cotidiana, se não fosse por mim que estava fazendo piadas aleatórias sobre a situação. Definitivamente, não era o momento apropriado para isso, mas eu fazia mesmo assim. Como minhas ídolas Katya Zamolodchikova e Trixie Mattel disseram uma vez: “Não promovido e não solicitado”.

Mesmo que as piadas fossem totalmente fora do momento, elas me ajudaram a desviar do recente acontecimento e diminuir o meu desespero.

Logo depois dos cortes estarem protegidos por Band-Aids e da maioria dos cacos de vidro terem saído do meu quarto, eu fiz o que qualquer adolescente geração-Z faria… eu publiquei em uma rede social o que aconteceu comigo. O WhatsApp foi o escolhido.

Nos status do aplicativo, eu escrevi:

“Estourei meu primeiro vidro e agora estou com 3 curativos (dois em uma mão e um na outra). Vibe check”.

Ironia e sarcasmo com um toque singelo de poeira de vidro quebrado.

Em um vídeo de março de 2019, feito pela ensaísta e ex-filósofa Natalie Wynn, em seu canal ContraPoints, ela fala que pegar um momento de dor, trauma ou sofrimento e transformá-los em uma forma de prazer é uma forma de superar momentos difíceis da vida. Ela chama essa forma de “Escuridão”. Um exemplo pessoal dela é preferir chamar uma cirurgia de redesignação sexual na qual ia passar – Wynn é uma mulher trans – de “operação de mudança de sexo.”*. O motivo era acalmar os seus medos do pré-operatório.

Mesmo que a proposta e foco do vídeo fosse mais voltada ao humor ácido, que para Natalie é a melhor representação de Escuridão – eu já discordo, por ser um exemplo muito simples para um tema muito abrangente -, esse vídeo me fez pensar sobre como superamos ou acalmamos os impactos da dor. Na experiência do vidro, eu acalmei o meu medo e agonia com piadas e uma confissão na qual eu estava “feliz” com o que tinha acontecido. Mas e quanto a respeito a outras pessoas, a outras vivências? Essa definição serve para todas elas? O vídeo de Natalie não respondia esses questionamentos, por isso, fui procurar uma definição própria para essa questão.

Pergunta: Você já passou por uma situação onde sentiu uma profunda dor? Como era?

Resposta 1: Sim. Quando meus pais se separaram em 2016.

Resposta 2: Quando sinto ansiedade em relação a morte da minha tia.

Resposta 3: Foi meio que uma mistura de coisas. Eu vi pessoas totalmente importantes para mim saírem da minha vida, além de pessoas próximas a mim morrerem.

Resposta 4: A perda de pessoas muito queridas que estão em outro plano sempre é muito doloroso. Ou quando se corta laços com alguém.

P: Como você suportou essa dor?

R 1: Procurei me distrair, com minhas amigas, primas, algumas saídas, também tentei ao máximo me relacionar bem com meus pais mesmo ambos distantes um do outro, e tentar entender que era preciso me recuperar.

R 2: Ainda tenho recaídas, mas passei a lembrar os momentos bons vividos antes dela morrer e pensar mais positivamente.

R 3: Eu meio que ocupei minha mente com outras coisas (jeito errado de lidar), então sempre que paro pra pensar tudo vem à tona.

R 4: Nas vezes que passei por essa experiência foi sentir a dor, sabe? Deixo doer, viver a experiência e depois tento voltar à rotina aos poucos, contar com o apoio de amigos e familiares vão ajudar a superar, pelo menos um pouco. E o resto é com o tempo, o tempo cicatriza também.

P: Você consegue aceitar, suportar ou minimizar essa dor? Como?

R 1: Hoje suporto. Com pensamentos mais positivos, um ciclo de apoio presente.

R 2: Chorar alivia muito. Também escuto músicas que eu gosto e pinto quadros.

R 3: Eu consigo minimizar usando outras coisas e deixando os medos em segundo plano.

R 4: Eu realmente não sei. Há dias que sinto ansiedade porque a pandemia me impossibilitou de ter emprego, então quando as contas atrasam, falta comida, isso me dá pavor. Mas como fiz terapia eu busco me acalmar e buscar soluções. Fazer minha parte e entender que nem sempre vou conseguir tudo.

Esses são relatos que coletei em uma pequena entrevista que fiz com algumas pessoas.

As perguntas, como puderam ler, eram sobre eventos dolorosos e como cada um superou esses eventos. Eles revelam que ninguém compartilha da mesma forma de lidar e que os sentimentos ruins não se vão para sempre. Como as respostas mostram, pequenas memórias podem ser um gatilho para emoções gigantes.

Mas algo que esses relatos também revelam é a nova definição para a Escuridão.

A Escuridão não é uma cura definitiva. É um tratamento a longo prazo.

A Escuridão pode ser materializada em pessoas que você ama, coisas que você gosta de fazer ou até escolhas pessoais, como deixar o tempo curar ou ir para a terapia.

A Escuridão é transformar o inimigo em um amigo. É aprender com ele. É construir uma relação harmoniosa entre você e o seu emocional.

A Escuridão não te deixará afogar em uma espiral de tristeza e sofrimento.

A Escuridão era o que eu tinha encontrado.

E foi ela que me fez entender que todos nós somos capazes de lidar com os nossos sentimentos, que somos fortes o suficiente, mas acima de tudo, a Escuridão me fez perceber que a noite pode parecer assustadora, mas depois dela um raio de sol aparece, quebrando o som do silêncio e te libertando dos seus demônios internos.

*Nota do autor: O termo “operação de mudança de sexo” não é apropriado quando se trata de uma cirurgia de redesignação sexual. O segundo termo é melhor para usar, além de ser mais respeitoso.

[2021]

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