Categorias
crônica

Virada

O ano de 2021 já estampa o calendário. É difícil precisar o que significa essa passagem depois que se tem consciência de que é uma invenção humana. Para mim, a palavra “virada” transborda a ideia de algo totalmente novo. Virar pode ter a conotação de tornar-se. Ela virou freira. Ele virou padre. Eles viraram super-heróis. Traz sempre essa ideia de transformação. Virar o jogo, virar a página, virar uma nova pessoa, virar o conteúdo de um copo, virar a mesa.

Eu também entendo que a palavra “virada” é, quase sempre, positiva. A gente acha boa a ideia de que a vida dê uma virada, mesmo que esteja tudo bem, afinal, sempre pode ficar melhor. Por isso, alguns apostam na Mega Sena da Virada, que pode ser a virada de ano ou a virada de vida. Para quem ganhar, com certeza uma dupla virada.

Só que eu tenho cada vez mais dificuldade em acreditar nessa virada no final de ano que não seja a simples mudança de um número para outro. Essa virada é rápida demais, é súbita, é pontual. Neste caso, tem até hora marcada e contagem regressiva. Admito que é legal sentir aquela cócega de esperança nascendo lá dentro da nossa barriga, mas ela vai embora na primeira coçada. E não acho que isso seja pessimismo; eu acredito e espero sempre que tudo melhore. Mesmo vivendo uma época em que cada dia supera o outro em notícias absurdas. Uma virada agora não seria nada mal. Deixar a pandemia e o desgoverno para trás. Eles não podiam ficar lá, junto com 2020?

Na maturidade, tenho tido mais convicção nas viradas graduais, naquelas que a gente constrói aos poucos e que, por vezes, se materializam em maio ou agosto. Sem desmerecer o que vale para cada um, é claro. Talvez exista alguém que leve a sério as resoluções e elas, de fato, funcionem. Já faz um bom tempo que não penso nelas na virada do ano. Já fui de escrever até, mas não chegavam ao carnaval. Se for importante para algumas pessoas essa hora marcada para virar a página, ok. Parar de fumar, acreditar na vacina, fazer dieta, ler mais, fazer exercícios, consumir menos, estudar política. Tem muitas opções. Eu queria conhecer a história de alguém com uma resolução de fim de ano que se cumpriu. Parece lenda urbana. Nunca vi, mas sei que existe.

Acho que o grande lance é não fazer resolução nenhuma na virada. As resoluções importantes não são pontuais, elas precisam perdurar e a virada de ano-novo dura, o quê? um minuto? Na Times Square, em Nova Iorque é assim. Em um segundo você tá vendo a bola subir, esmagada no meio de um monte de gente, no outro, foi todo mundo embora. Claro que o frio não ajuda em nada. De qualquer forma, onde quer que se esteja, talvez seja melhor deixar a euforia do momento passar e fazer as resoluções lá em fevereiro ou março, depois do carnaval, para não ter erro. 

2 respostas em “Virada”

A mudança é sem dúvida um desafio, uma perda de identidade, uma guinada, uma aposta, um blefe com cartas marcadas, uma renúncia. Mudar é um flertar com o desconhecido, afogar as manias, assassinar um vício, retorcer um princípio. A mudança no calendário talvez seja esse gatilho, um marco subjetivo mas necessário pra mudar algo já enraizado no cotidiano. Confesso que fracassei em tantas propostas de mudança que desisti, deixo sempre ao acaso o que antes foi imposição. Tá dando certo. Bjs prima😁😁

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *