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Uma colher de sopa de pó para uma xícara de água

Enquanto eu estagiava, aprendi a fazer café. Eu, que chegava alguns minutos antes do horário de início do expediente, aproveitava o adiantado da hora para prestar uma gentileza aos colegas preparado-lhes um café. Foi nessa época que aprendi inclusive as medidas para a sua feitura: uma colher de sopa de pó para uma xícara de água.

Sim, eu gosto de café. Do gosto do café. Do cheiro do café. Do som do café sendo coado.

Aprendi a gostar de café ao mesmo tempo em que estagiava. Mas foi na faculdade que me habituei a tomá-lo. Por conta das noites em claro. Os estudantes de arquitetura sabem do que estou falando; noites em claro projetando prédios-parques-equipamentos sobre uma prancheta demandam bastante energia, ué.

Eu, que não me dou bem com energético, passei a recorrer ao café. Ao famoso pingado. Foi precisamente ao suprir essa necessidade que eu passei a gostar dessa bebida quentinha e estimulante.

Eu não gosto só de café. Gosto do ambiente em que se toma café. Sejam os cafés movimentados da Avenida Paulista, seja a minha cozinha vazia no fim da madrugada.

Lá pelas cinco, cinco e meia da manhã, estou eu focado na água fervente-borbulhante. E na medida do preparo: uma colher de sopa de pó para uma xícara de água.

No frio, café é bom. Já que aquece o coração. No calor, café é bom; afinal, também aquece o coração.

Café vai bem com pão de queijo e com um bolo quentinho. Bolo simples, daqueles que levam só uma xícara de farinha.

Bolo simples, que combina bem especialmente com café recém-passado. Daqueles feitos com uma colher de sopa de pó e com uma xícara de água.

Por Guilherme Formicki

Guilherme Formicki é escritor, arquiteto e urbanista. Desde pequeno, adora escrever. Na escola, ganhou seu primeiro concurso de redação ao escrever sobre uma nota musical presa dentro de uma flauta. Mais recentemente, sua coletânea Pranto e Outros Contos, disponível no Wattpad e na Amazon, ganhou o primeiro lugar no Concurso Diamantes Raros, segundo lugar no Concurso Fique em Casa e terceiro lugar no Concurso Literário Novos Talentos. Guilherme também publicou o conto “Eles” na revista LiteraLivre de Julho/Agosto de 2020.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 2016, Guilherme obteve o título de mestre em Planejamento Urbano em 2019 pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, recebeu uma bolsa Lemann e ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação mais comprometida com justiça social. Guilherme também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB), onde participou da urbanização de 7 favelas e auxiliou mais de 74 mil famílias entre 2014 e 2016. Guilherme atualmente concilia a sua dedicação aos estudos urbanos com a sua paixão por escrever.

6 respostas em “Uma colher de sopa de pó para uma xícara de água”

Acredito que todos nós temos um apego por alguma coisa que traga além do prazer pelo paladar, boas lembranças, prazeres sinestésicos. Muito legal ler esse texto e poder se identificar com esse sentimento.

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