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Última vez

“Um dia, você e seus amigos saíram para brincar pela última vez. E nenhum de vocês percebeu.”

Vi uma imagem com essa frase, em um site. Na imagem, crianças jogando bola no meio da rua. Havia muitos jogos de futebol de rua, na minha rua. 

Um dia, nós fomos jogar bola pela última vez, sem que soubéssemos ser a última. Então penso em situações que todos nós, em algum dia – sem que soubéssemos-,  vivemos pela última vez.

A última vez que fomos brincar na rua com os amigos do bairro, até que o grito! das mães nos fez voltar pra casa pra lancharmos e fazermos a lição; o último diagrama desenhado a giz na calçada pra pular Amarelinha; a árvore de cinamomo que subimos pra arrancar as bolinhas e começar uma guerra no pátio; a última merenda que levamos na lancheira (os pães bisnaguinha e o toddynho); o último salgadinho que abrimos pela parte debaixo – o tazo quase sempre estava ali; o último uniforme da escola (dobrado sobre a cadeira) e a mochila ao lado da cama – organizados sempre na noite anterior; o último pega-pega ou esconde-esconde naquela festinha de um colega; o último balão surpresa que estourou – não havia amizade nessa hora; o joelho ralado e a voz da mãe (não falei pra não correr?!); a última ardência do Merthiolate e a alma caridosa a soprar pra não arder tanto; a última vez que levamos um dos primos dentro do carrinho de cimento dos pedreiros, subimos no monte de areia que ficava em um canto do pátio; o último preto-sujeira na sola dos pés por correr descalço; a última tarde livre depois da escola quando assistimos todos os desenhos que passaram na tv; o último tema de casa que nos ajudaram a fazer, a última história antes de dormir; o último dia com medo do escuro; o último dormir no carro (as viagens tão longas) e acordar na praia; dormir no sofá e acordar na cama; o último quebra-cabeça que veio no Kinder ovo ; os presentes pro dia dos pais ou dia das mães feitos na escola; a última vez dentro do carrinho de supermercado; o último mingau de maisena em um dia frio; a última guaraná caçulinha do Pokémon; a última manhã de sábado assistindo As Trigêmeas, a noite de sábado assistindo Goosebumps; o desenho de canetinha hidrocor que foi pra geladeira; a casa na árvore que planejamos (nunca feita); o bolo de aniversário com nosso nome; a última a aula de ballet; a última bênção dos pais antes de dormir; o último “quem quer brincar põe o dedo aqui”; o último brincar no balanço (vamos ver quem vai mais alto!).

O último almoço com toda família reunida na casa da vó – as rodas de samba; o último Gre-Nal com o vô; o último barquinho de jornal que o ele fez; as bolhas de sabão que sopramos do canudinho no pátio da vó; o pião de madeira que fizemos girar; a viagem no porta-malas do carro do vô (o final de semana no sítio); a última fogueira de São João do bairro.

O último milho que comemos na beira da praia; a fita VHS que pegamos na locadora ( rebobinar o filme antes de devolver!); o último álbum de figurinhas que colecionamos; a última tarde nos fliperamas; as últimas fotografias reveladas; o futebol “10 minutos ou dois gols”; o trabalho em grupo apresentado em cartolina; o último verdade ou consequência (a esperança de beijar a pessoa amada); a última Malhação que acompanhamos; o celular com antena, o último flertar por SMS; o veraneio em Cidreira, andar nas dunas; a festa de 15 anos que fomos; o clipe da nossa música favorita na MTV; o último subnick-indireta pra alguém no MSN; o livro que ganhamos com dedicatória; a última brincadeira e os latidos do nosso cachorro; o ronronar da gata; a última mesada que recebemos; a última ligação (a cobrar) feita de um orelhão; e o barulhinho que a internet discada fez (entrar só depois da meia-noite).

O último abraço apertado; o beijo apaixonado-demorado; a tarde matando aula pra namorar; a carta que recebemos e a que escrevemos (como é a letra das pessoas hoje em dia?); a última vez que alguém escutou verdadeiramente nossas histórias;  a última vez que o coração bateu forte num encontro; a última viagem juntos; a última loucura que fizemos por amor; o último dormir de conchinha; a última música que era “ a nossa música”; a última noite de amor (ou manhã, ou tarde); o último andar de mãos dadas; o último olhar dentro dos olhos; o beijo na testa; o último “me avisa quando chegar” (formas de dizer que nos importamos);  o último presente de dia dos namorados.

O último chute de um filho dentro da barriga; a última amamentação; o último colo enquanto chorava em uma madrugada e a última madrugada cuidando dele; a última fralda trocada; e a última vez que precisou das mãos adultas para conseguir andar.

O último dia em que costas e joelhos não doeram; o último dia que dormimos uma noite inteira sem acordar de madrugada; o último dia sem nos preocuparmos com os (mil) problemas pra resolver; o último dia sem marcas do tempo no rosto, no corpo ; que enxergamos sem precisar de óculos; que passeamos com os netos; que cozinhamos pros netos; o último dia que a saúde ia bem; a última vez que a memória (já fraca) conseguiu lembrar das últimas vezes que vivemos.

Um dia, sem o grito-aviso das mães que pareciam sempre prever um futuro próximo, como nos tempos de infância, nós vivemos o último dia de algo. Momentos que eram parte inexorável do nosso dia-a-dia. Alguns que aqueciam o coração e imaginávamos: serão pra sempre. Mas o dia chegou: nós os vivemos pela última vez. Depois, nunca mais.

Não houve – nunca há – um aviso. Um dia, ao olhar pela janela da vida, esses momentos já iam longe…

Até o dia que, sem aviso também, a última batida do coração.

3 respostas em “Última vez”

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