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TPM

Sabe o que eu gosto na TPM? É que ela me dá certeza de que sou bicho. Simples, complexo, que pensa, e que não. Não sei explicar minha espécie. Mas não sou do tipo máquina.

Às vezes, confundo-me. A rotina é tão roboticamente repetida.

Meu trabalho quase se autorealiza, não estimulando mais meus neurônios. Minhas leituras entram instantaneamente em arquivos cerebrais que pedem urgente backup. Minhas supostas necessidades de consumo me aproximam mais do carro que da moça que me pede dinheiro com o pobre menino nos braços. Mas eu não sou robô.

Meu relógio biológico anda mais adiantado que o despertador. Toda oito horas é igual. E todo meio dia é igual. E toda “Brasília, dezenove horas” é igual. As noites variam, às vezes. Os fins de semana também, não sei. Não estou muito segura de nada por hoje.

Sei que vive a natureza seu ciclo menor, enquanto eu atravesso meu ciclo de 28 X 24 horas. E todo mês é a mesma coisa: vejo findar a cartela, vejo nascer a lua cheia, vejo a barriga inchar. Daí a razão me garante que dessa vez não vou cair nas armadilhas dos meus hormônios. Quando vier aquela fome, aquela lágrima, ou aquela angústia, a capoeira me ensinou: é só esquivar.

Breve ilusão. O que a capoeira ensinou mesmo é que levar rasteira faz parte do jogo e, quando ela é bem encaixada, o tombo é inevitável. Você até vê ela vindo, troca olhares verborrágicos com seu parceiro de roda, e cai.

TPM diz: Feia, gorda, chata, inconveniente, rabugenta, burra, desligada.

EU digo: Eu sei, não sirvo para nada, sou o excremento e o estorvo do universo.

EU II diz: Para de ser louca. Ainda não sabe que isso é TPM?

EU digo: Ah é.

Ah é o que? Ah é nada! Ah é tudo! Não é loucura da minha cabeça não. A realidade é que só nesse período do mês fico sã. Minha história parou e o relógio não. Meus dias são amontados de segundos desinteressantes. Como diferente seria se eu sou desinteressante? Minha casa, minha vida, meus amores, minha família. Brindo? Brindo o #@$%&*!

Quer dizer, melhor brindar. Acho que um vinho cai bem. A lua está tão linda. É tão injusto eu amaldiçoar o mundo e essa pessoa singular que as deusas construíram. Minha vida é tão boa. Meus amigos, tão fantásticos. Minha família, tão carinhosa. Meu trabalho me proporciona realizar tantas aventuras, tantos desejos. Meus sonhos são tão mágicos. Meus planos tão práticos. Está tudo tão bem.

E, enquanto o copo esvazia, os olhos enchem às lágrimas. Desta vez, felizes. Em meia hora podem não ser. Não importa.

Eu sou bicho. Estou viva. Mulher fêmea mãe. Sinto sangue pulsando nas veias. Logo expulsando. Morro e renasço todo mês. Muitas vidas numa só.

“Capoeira que é bom não cai, mas se um dia ele cai, cai bem”, disse Vinícius. Essa carta, minhas amigas, é um voto de que nossos inevitáveis tombos mensais venham em luta e dança, venham em roda e palmas, venham para nos ensinar a gingar.

Com sangue nas veias e ainda não na vagina,

P.

PS: Nessa mesma música, Berimbau, Vinícius de Moraes alerta que “quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém”. Amadas, saiam de si sempre que puderem.

Por Patricia Baldez

Brasiliense de nascimento, no cerrado plantei duas graduações – Comunicação e História – e dois filhos – Gabriel e Otto.

Na floresta, lá na fronteira do que não existe, reguei árvores e voltei a cultivar o amor pelas palavras.

Agora, no Nordeste, o terreno, a semente, o fertilizante e a poda de um livro se encontraram. Rego com a água do mar, cheio de sal e ondas. E escrevo por aqui enquanto espero florescer.

2 respostas em “TPM”

Que porrada de texto! Que vontade de tatuar na testa! Depois de anos brigando com meu eu-bicho, ler sobre ciclos sempre me deixa um pouco mais feliz, um pouco mais fora, um pouco mais dentro de mim.

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