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Tenho medo, logo existo

O monstro estava lá, na minha frente. Pronto para dar o bote.

A aranha tinha descido de sua teia tão rapidamente enquanto eu escovava os dentes que, quando me dei conta, eu não podia fazer mais nada. Agora só me restava esperar pelo fim. E nem daria tempo de guardar a minha escova e a pasta de dentes.

Se não fosse tão angustiante, o medo poderia ser algo engraçado. Sei lá, às vezes tememos tantas coisas relativamente inofensivas que, depois que o pavor cessa e nos lembramos da angústia pela qual passamos, só nos resta rir.

Como nesse dia em que fui encurralado por um monstro. A aranha provavelmente se sentiu mais ameaçada que eu. Mas, já que ela não pode se pronunciar, eu falo por ela: a bichinha estava apavorada!

Não que eu seja um cara assustador — nunca me deram esse feedback, pelo menos — ou famoso por exterminar aranhas pequeninas. Mas sou bem maior que ela e, pelo que falam os cientistas, mais inteligente.

O que me faz lembrar que o medo também é biologicamente importante. Sem ele, talvez nós, humanos, já estivéssemos extintos.

Ok, o medo é importante, mesmo que seja às vezes exagerado. Mas sentir medo é legítimo? Em outras palavras, deveríamos nos envergonhar desse sentimento?

Sinceramente, acredito que ter medo significa estar vivo. Não só porque o medo nos afasta do perigo da extinção.

O medo e os sentimentos derivados, como a insegurança e a ansiedade, são reações a estímulos do cotidiano. São respostas a fatos da vida.

Como o surgimento de uma aranha em um momento de vulnerabilidade. Quando estou sozinho no banheiro escovando os dentes e vejo a aranha na minha frente, eu sinto o medo de ser picado. E posso ficar inseguro e ansioso todas as vezes em que ficar sozinho numa casa com insetos à solta.

De qualquer forma, os medos não vêm à toa. Precisamos ouvir o que eles têm a nos dizer.

Precisamos aceitar que tememos certas situações. E que não somos fracos por isso. Pelo contrário; é justamente por causa de certos temores que estamos vivos e que somos mais fortes que outras espécies que hoje nem existem mais.

Adaptando o famoso “penso, logo existo” de René Descartes: tenho medo, logo existo. Se tenho medo, é porque estou vivo.

O medo pode nos incomodar. Mas também pode nos salvar.

E não podemos nos culpar por termos medo. É super ok ter medo. Todos sentem medo. Não estamos sozinhos nessa angústia, afinal.

Sejamos gentis conosco. Assim como eu fui comigo mesmo no dia em que me deparei com a aranha no banheiro. Eu simplesmente aceitei que estava angustiado. Com medo, afastei a aranha de perto de mim e saí do banheiro rapidamente e sem olhar para trás.

Passou. E eu estou vivo. Enfrentei o meu medo e, talvez porque o tenha admitido, eu me protegi e estou aqui contando essa história.

P.S.: Esse texto não é uma apologia ao medo ou ao sofrimento. É, na verdade, um convite a aceitarmos os nossos sentimentos. Mas, se você sente que não consegue lidar com os seus temores, eu recomendo que procure um profissional capacitado para ajudar. É ok pedir ajuda. É outro sinal de que estamos vivos.

Por Guilherme Formicki

Guilherme Formicki é escritor, arquiteto e urbanista. Desde pequeno, adora escrever. Na escola, ganhou seu primeiro concurso de redação ao escrever sobre uma nota musical presa dentro de uma flauta. Mais recentemente, sua coletânea Pranto e Outros Contos, disponível no Wattpad e na Amazon, ganhou o primeiro lugar no Concurso Diamantes Raros, segundo lugar no Concurso Fique em Casa e terceiro lugar no Concurso Literário Novos Talentos. Guilherme também publicou o conto “Eles” na revista LiteraLivre de Julho/Agosto de 2020.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 2016, Guilherme obteve o título de mestre em Planejamento Urbano em 2019 pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, recebeu uma bolsa Lemann e ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação mais comprometida com justiça social. Guilherme também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB), onde participou da urbanização de 7 favelas e auxiliou mais de 74 mil famílias entre 2014 e 2016. Guilherme atualmente concilia a sua dedicação aos estudos urbanos com a sua paixão por escrever.

5 respostas em “Tenho medo, logo existo”

Bom texto. Concordo com a conclusão a que o autor do texto chegou: devemos aceitar nossos sentimentos e lidar com nossos temores, sem medo de sermos julgados.

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