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Somos todos Sísifos

Eu estou na sala onde fica o tanque de lavar roupas. Sobre o tanque está a bacia e dentro dela, as roupas. Eu pego uma camiseta. A água salta. Eu a retenho com a mão esquerda, deito-a sobre a tábua e, com a mão direita, faço o movimento de vai e vem – como um balanço – para esfregá-la. Mergulho de novo na bacia e repito o processo. Quando sinto que está bom, torço a camiseta para retirar a água de excesso, vou até o varal e a estendo. Volto à bacia, escolho outra camiseta e recomeço o processo.

O tanque fica em uma sala pequena. Há espaço para uma máquina e o tanque de lava roupas além de uma ou outra tralha que guardamos na vã esperança de que serão úteis um dia. O tanque fica próximo a uma das paredes laterais. Quando pego outra camiseta (a terceira desde que comecei), um pouco de água salta em direção à parede. Eu observo sua ação em câmera lenta e, nesse trajeto, a água bate em em algo que andava na parede. Esse algo cai e está agora no chão. Eu ajusto a visão. É uma aranha.

Sei que há no mundo muitas espécies diferentes de aranhas, mas não sei o nome da maioria destas espécies. Esta que caiu no chão é daquelas que o corpo não é maior que uma gota d’água e os dedos-pernas são compridos e finos como os de um pianista experiente. Quando criança, os adultos costumavam dizer que são aranhas de teto, que não fazem mal algum e não são venenosas. Embora nunca tenha visto nenhuma picar alguém para saber se, de fato, não há veneno. A aranha estava na parede, quase na altura da bacia. Agora, por causa da água que respingou, está no chão, recompondo-se. Eu paro, uma camiseta em mãos, e fico observando. Ela recomeça. Dedo por dedo, traça um movimento macio sobre a parede e reinicia a subida. Parece não ter pressa. Quando finalmente está perto da altura em que estava antes, seus dedos escorregam e ela despenca lentamente, como a folha de uma árvore. Está no chão novamente. Eu percebo que a parede está úmida onde ela escorregou. A aranha recomeça.

Eu nunca gostei de aranhas. Pensando bem, durante boa parte da infância (talvez até da adolescência) tive medo de aranhas. Um medo capaz de paralisar. Um dia, não lembro qual e como e porquê, o medo passou. Não que eu goste de aranhas atualmente. Mas consigo coexistir na mesma sala – e, também, no mesmo mundo – que elas. A aranha está na metade do caminho, em mais uma subida, quando dois de seus dedos escorregam de novo na parede e ela cai alguns centímetros. Agarra-se com toda força. Ela não cai no chão. Mas quase. Neste momento exato, então, penso em Sísifo. Condenado a carregar a grande pedra montanha acima para, em seguida, vê-la cair. E recomeçar o processo. O absurdo da existência. Humanas e não humanas. Penso em mim, esfregando as roupas, dia após dia, colocando-as no varal, guardando-as, para, em um dia próximo, recomeçar. Sísifo, a aranha e eu. Presos ao absurdo da repetição da vida. Cada qual carregando suas pedras montanha acima.

A roupa ainda está em minhas mãos, pingando água dentro da bacia, e eu cuido para que não molhe mais a parede. Quando dou por mim, estou torcendo pela aranha. Quero que ela suba. Quero que ela consiga! Em meu coração, esse sentimento cresce. Sinto que ela precisa executar sua tarefa. Sinto que se ela conseguir concluir a tarefa, eu também conseguirei concluir a minha. Em um ponto, de repente, ela para. Metade do caminho. Está cansada. Ela me olha nos olhos. Por um instante brevíssimo, nos entendemos com o olhar. Dizemos, sem palavras, um ao outro: “Siga em frente. Tu consegue!” E ela segue, e consegue. Ela consegue! Alcança o local almejado. A pedra no alto da montanha. Estamos, agora, Sísifo, a aranha e eu, no topo da montanha. Sinto o coração transbordar. A tarefa concluída.

Eu torço a camiseta em minhas mãos, vou até o varal e a estendo. Volto para o tanque. Ainda há algumas camisetas para lavar – a pedra rolando montanha abaixo.

Então: eu recomeço.

10 respostas em “Somos todos Sísifos”

Eu me identifiquei TANTO com essa crônica. Eu me vi na mesma situação: torcendo para que uma formiga suba. Ela chegava num ponto, caía e recomeçava. Incrível esse texto. Parabéns!

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