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crônica narrativa

SILÊNCIO

A rua era um vazio assombroso e o vento breve de outono soprava levantando a poeira que se acumulava nas sarjetas. Maritacas gritavam sobre sua cabeça e os cães estavam em silêncio nos quintais. O sol brilhava forte já pela metade da manhã, cruzando as copas das árvores e brilhava nas poças d’água da chuva da noite anterior. A cidade estava fechada e ele estava obrigado a sair. Os sons da cidade estavam mortos, apenas a natureza sobrevivia ao silêncio imposto pelo microscópico. Um cachorro descia a rua e farejava o caminho em busca de algo, que ele não sentia o cheiro. O cachorro se aproximou, cheirou as pernas dele e ganhou um carinho. O cachorro retribuiu com o balançar de cauda amistosa, lambeu a mão dele como despedida e seguiu o seu destino com sua liberdade. Ele continuou a sua caminhada solitária e, de uma janela, uma senhora que observava o vazio da rua, mirou os olhos nele. Ele pensou em acenar, desejar um bom dia, mas a senhora saiu da janela e se perdeu no interior da casa. Caminhou lentamente e chegou ao lugar que poderia pegar o ônibus.

    Poucos carros passavam e os ônibus bem menos. Uma mulher chegou e se juntou na espera do transporte que os levaria aos seus destinos. Ela o olhou, esboçou se comunicar, mas desistiu. Ele achou que ela esboçava um sorriso, porém a máscara impedia a percepção exata do ato. O vento soprou mais forte fazendo com que o cabelo dela se embaralhasse no rosto e, assustada, tentou segurar as mechas que se rebelavam com o vento. Uma nuvem de poeira precipitou sobre os olhos dele e nesse instante eram mãos brigando contra uma força da natureza, a mesma força que deixava a cidade em silêncio. Ao recuperarem a possibilidade de visão novamente, perceberam que o ônibus chegava e, por coincidência, os dois entrariam na mesma linha. Acenaram e o ônibus parou. Ele deixou que ela subisse na frente.

    Dentro do ônibus que não tinha mais que cinco pessoas, buscaram os seus lugares. Ela sentou mais a frente e ele bem no final. Se entreolharam mais uma vez e  em seguida ela fixou seus olhos para frente e ele mirava a cidade passando pela sua janela. Da janela, ele viu um senhor solitário que caminhava com seu cachorro, um jovem que entregava algo na frente de um prédio, uma jovem sentada no quintal aproveitando o sol da manhã, um gari solitário varria as folhas de uma calçada, um carro de polícia que saia lentamente de uma rua transversal, um gato que pulava de um muro para um telhado, os pombos bicando o calçamento em busca de alimento e as lojas, que antes fervilhavam em movimento, com suas portas de ferro cerradas. O som da cidade estava tão modificado que parecia não estar nela, mas em um mundo que nunca tinha visto tão silencioso entre a selva de construções da cidade gigante. Sentiu o vazio que estava acostumado por sua casmurrice de uma forma diferente, o vazio não estava mais dentro de si, mas estava diante dos seus olhos ao vivo e a cores. As ruas que eram veias abertas, nesse instante eram artérias de um ser morto onde o sangue não corria mais. Até quando? Será que haverá um dia em que as ruas voltariam a ser o local de tantos encontros? Não tinha como saber, tudo era tão novo como o primeiro respirar de um recém-nascido. A mente dele seguia trabalhando nos devaneios da nova realidade.

    Ela se levantou e sinalizou que iria descer, chegava ao seu destino e ele seguiu os seus passos até a saída. Trocaram olhares numa fração de segundos, pareciam querer falar, mas não haviam palavras ou sons relevantes para aquele instante fugaz. Ela desceu. Ele a buscou pela janela, ela ainda olhou para trás e o vento soprou mais uma vez levantando os seus cabelos. Ele sorriu sem que ela pudesse ver que sorria. Pensou que poderia um dia encontrá-la novamente, mas os encontros são únicos e não haveria segunda vez.

    Ele chegou ao hospital, desceu em frente e o sino da igreja próxima estourou em onze badaladas. Uma ambulância entrou com a sirene girando e com o som não natural que ainda persistia pela cidade. Um bem-te-vi cantou sobre o muro e para ele era o último som da natureza que ouviria por várias horas. A partir daquela porta seria apenas o som eletrônico da UTI.

1 resposta em “SILÊNCIO”

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