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Sem surpresas

Para quem está realmente presente e atento, um relacionamento não traz mirabolantes surpresas – exceto catástrofes acima de qualquer imaginação, mas que não cabem na construção deste argumento. A gente pode até não gostar do desenrolar dos fatos, mas ser surpreendido por eles é muito difícil.

Não acredito em “mas estava tudo ótimo, não entendo como isto foi acontecer” ou “cheguei a pensar que era o fim e, de uma hora para a outra, ele mudou”. Não acredito em mágica ou milagre. Como disse, não acredito sequer em surpresas.

A gente não suspira a cada lembrança e passa o dia trocando mensagens, tão doces quanto picantes, para acordar uma bela manhã pensando em partir. E também não fica seis meses dividindo a cama mas não o corpo, dormindo de bundinha ou até evitando deitar no mesmo horário, se está tudo bem.

Quem está presente dentro de sua própria relação sabe, melhor que ninguém, em que estado ela se encontra.

Sim, certo, as pessoas não são todas iguais e as relações muito menos. Tem gente que é movido pela intensidade da paixão e tem gente que se sente mais confortável com a segurança da rotina. Tem gente que dá tudo por um instante mágico em que os feijões são lançados ao solo e um mundo encantado surge acima das nuvens; e tem gente que dá tudo pelo prazer de olhar para trás e ver como a sementinha do amor cresceu bem, o quanto ficaram fortes as raízes e frondosos os galhos. Toda gente ama, cada um a seu modo. E toda gente sabe, seja pisando em nuvens ou em terra firme, se o voo ainda tem céu para ganhar ou se a caminhada ainda tem estrada para seguir.

Vivemos hoje os tais tempos líquidos de Bauman, com suas vantagens e desvantagens, quer gostemos ou não. Considero uma pena que pessoas e sentimentos tenham se tornado tão consumíveis e descartáveis quanto objetos. Mas confesso um alívio em me saber livre para não permanecer onde não há amor, entrega, presença e vida.

Por escolhas e sem surpresas, com cores de Frida Kahlo, seguimos o mantra: onde não pudermos amar, não nos demoraremos.

Por Patricia Baldez

Brasiliense de nascimento, no cerrado plantei duas graduações – Comunicação e História – e dois filhos – Gabriel e Otto.

Na floresta, lá na fronteira do que não existe, reguei árvores e voltei a cultivar o amor pelas palavras.

Agora, no Nordeste, o terreno, a semente, o fertilizante e a poda de um livro se encontraram. Rego com a água do mar, cheio de sal e ondas. E escrevo por aqui enquanto espero florescer.

2 respostas em “Sem surpresas”

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