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SANTA CRUZ FC

Meu avô instituiu um clube de futebol, num recanto escondido do mundo, para as bandas do velho distrito de Saquarema. Isso mesmo, a cidade que deu nome aos conservadores do segundo reinado do país-colônia chamado brasil. O lugar era o Rio Seco e era o final dos anos 20 do louco século 20. Entre guerras. A segunda entraria em vigor em 36 (36 mesmo porque a Civil espanhola é o início da grande guerra). Folião, político, fotógrafo e apaixonado pelo Botafogo – Botafogo de Nilo Murtinho, Carvalho Leite e outros craques – o velho botou nos gramados do Rio Seco o Santa Cruz Futebol Clube. Clube pequeno, começou acanhado, mas em poucos anos já tinha a sua sede; na estrada principal do Rio seco. O campo começava perto da estrada e ia até o sopé de um morro, onde beirava um rio. Tinha uma inclinação que fazia com que quem atacasse para o lado da estrada, enfrentasse uma subida. Coisas dos campos tradicionais. O team disputava ferrenhamente o campeonato do município e tinha como seu maior rival nas cercanias, o Barreira, do distrito de Bacaxá, que hoje em dia disputa campeonatos nacionais com outro nome. Depois de muita luta, o Santa Cruz conseguiu conquistar a sua maior glória, o título municipal, primeiro e único desse pequeno gigante de um desses grotões perdidos do brasil. Os domingos eram admiráveis, as grades em volta do campo estavam sempre lotadas de uma torcida inflamada, apaixonada e vibrante. Os atletas bailavam com a bola nos pés; dribles, grandes defesas, lançamentos e golaços. E quantos golaços para o delírio da fanática torcida. 

Geraldo era o craque, ponta de lança de primeira linha, deixava a multidão em polvorosa esperando o domingo. A plateia delirava. Bola entre as pernas, lençóis, trivelas e muitos gols. Era tão querido e tão visado que os marcadores se desesperavam para encontrá-lo em campo; quase sempre sem sucesso. Teve até um pessoal do Vasco que chegou para levá-lo à São Januário, o craque teimou por um tempo em não ir. Mas acabou indo. Não durou dois meses no gigante da colina, voltou para casa de tanta saudade do feijão de dona Almira, sua mãe.

Bigode teve menos sorte. Uns olheiros do América, num domingo, chegaram para vê-lo nos gramados. Tinham ótimas informações sobre ele e, ao vivo, se encantaram com seu futebol. Decidiram levá-lo para Campos Sales. Mas por ironia do destino, no domingo seguinte, sofreu uma entrada duríssima que o tirou para sempre dos gramados. Morreu de desgosto dois anos depois, entregue ao álcool. Uma lenda que corria pelo lugar, dizia que quando os jornais noticiaram a bicicleta de Leônidas, dado como criador do movimento, o pessoal do Rio Seco sorriu e tripudiou; Bigode já havia feito isso muitas vezes nos gramados do Santa Cruz. Para o pessoal da região, Bigode era o criador da bicicleta e não existia Jornal do Brasil que mudasse a autoria. 

Os bailes aos domingos e os carnavalescos no Santa Cruz eram o deleite popular. A grande voz que ressoava pelo salão era o da maravilhosa Dolores – homônima da Duran. Dolores estava sempre atenta às novidades musicais da capital e, acompanhada da banda do Ernesto, músico de mão cheia (contava aos quatro ventos que já tinha acompanhado Araci de Almeida, mas as pessoas sempre achavam uma grande história de pescador), soltava a sua voz suave e potente. Eram nessas noites que os namoros começavam ou terminavam. As moças de família, acompanhadas dos irmãos, podiam sentir as alegrias dos encontros. Fugas para os encontros de bocas e corpos sob a proteção do luar não faltavam. Algumas vezes essas fugas eram descobertas e o fuzuê se criava. Casais eram formados as pressas para não manchar o nome da moça. No carnaval, moças e rapazes se misturavam pelo salão envoltos em suas fantasias improvisadas, os mais abastados gastavam com tecido e produziam fantasias luxuosas. Quem podia aparecer para preparar a decoração, aparecia. O carnaval era festança das boas, daquelas de arromba. 

Hoje, quando eu passo na frente do campo, faço questão de entrar e olhar. Hoje o portão não fecha mais muro nenhum, a sede não existe mais, as bicicletas de bigode não levantam mais o público, a voz de Dolores já não chega aos ouvidos e os bailes carnavalescos não existem mais. O rio que passava lá atrás, morreu. Mas as balizas estão lá, a inclinação de uma baliza a outra ainda impressiona. O seu tamanho fora dos padrões de hoje também assusta. O campo é só uma lembrança dos tempos onde um povo vivia o cotidiano sem pressa, sem saber quase nada do mundo. Nesse instante meu avô descansa de frente para o mar, nas costas da igreja, e eu sigo escrevendo e, matando as saudades, das histórias que povoaram o velho campo do Santa Cruz Futebol Clube.

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