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Quem aqui tem medo do silêncio?

Quando eu era criança, minha mãe tinha a mania de desligar a televisão da sala. E eu tinha a mania de me cansar de assistir à tevê, sair da sala e deixar o aparelho ligado e tagarelando com o sofá. Talvez daí viesse a mania da mamis.

A mania dela, aliás, não soa muito como mania, mas como ato pensado, não? E como algo como bastante digno de uma mãe. Já a minha mania provavelmente soa como uma displicência ou inconsequência.

Meu pai ralhava comigo. Filho, olha a conta de luz!

A bronca dele não era uma mania. Era algo necessário.

Eu realmente achava que era um garoto displicente. Talvez eu fosse mesmo, afinal. Mas, hoje, tenho uma nova hipótese. Mais contundente. Eu tinha — e ainda tenho, temo admitir — medo do silêncio. Ou do barulho do silêncio.

O medo. Já tratei aqui da face necessária desse sentimento tão presente em todos. Agora, me cabe lançar duas perguntas-reflexão: Quem aqui tem medo do silêncio? E por quê?

Mesmo depois da infância, eu continuo com esse hábito — vamos chamar de hábito, e não mais de mania, ok? — de ligar a tevê onde por onde eu passe e mesmo que eu esteja em um ambiente vizinho ao aparelho. Eu só preciso estar próximo o suficiente para escutar. Especialmente, se eu estiver sozinho.

Se você também tem essa questão tão angustiante, pense comigo: por que nos afligimos com o silêncio?

Vamos lá. No que você pensou?

A minha hipótese é que o silêncio nos lembra da nossa solidão. Pode ser uma solidão familiar, afetiva, existencial e por aí vai.

A filosofia explica a solidão. Friedrich Nietzsche, famoso pensador alemão, já dizia que a solidão é uma espécie de ausência de muletas, como os dogmas do conhecimento, a espiritualidade incontestável ou a busca — e o eventual encontro — de um significado metafísico ou até mágico nas coisas.

Segundo Nietzsche, essas muletas nos protegem, mas também nos impedem de alcançarmos uma vivência mais humana e mais real. Para o filósofo, quando nos libertamos das muletas da vida, a solidão que se segue nos permite sermos livres de ilusões e criadores das nossas próprias possibilidades.

E aí? Te consola pensar numa solidão libertadora? Talvez, certo?

Eu, quando criança, não tinha ideia dessas explicações todas. Eu só tinha medo do silêncio mesmo. E ainda tenho.

Sou medroso? Covarde? Livre? Talvez sim, talvez não. Mas, definitivamente, sou humano. E isso já explica muita coisa. Inclusive, o porquê de eu nunca desligar a televisão.

Por Guilherme Formicki

Guilherme Formicki é escritor, arquiteto e urbanista. Desde pequeno, adora escrever. Na escola, ganhou seu primeiro concurso de redação ao escrever sobre uma nota musical presa dentro de uma flauta. Mais recentemente, sua coletânea Pranto e Outros Contos, disponível no Wattpad e na Amazon, ganhou o primeiro lugar no Concurso Diamantes Raros, segundo lugar no Concurso Fique em Casa e terceiro lugar no Concurso Literário Novos Talentos. Guilherme também publicou o conto “Eles” na revista LiteraLivre de Julho/Agosto de 2020.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 2016, Guilherme obteve o título de mestre em Planejamento Urbano em 2019 pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, recebeu uma bolsa Lemann e ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação mais comprometida com justiça social. Guilherme também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB), onde participou da urbanização de 7 favelas e auxiliou mais de 74 mil famílias entre 2014 e 2016. Guilherme atualmente concilia a sua dedicação aos estudos urbanos com a sua paixão por escrever.

4 respostas em “Quem aqui tem medo do silêncio?”

Eu também fico meio incomodada quando está tudo silencioso. Acho que o silêncio faz qualquer sonzinho se propagar e me dá um pouco de medo. Escuto um barulhinho qualquer lá fora e fico pensando “será que tem alguém ai?”. Bem de filme de terror mesmo! Outra coisa, aliás, que me dá um baita medo haha

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