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crônica

Quem ama a ditadura?

Acordei pensando nas muitas conversas que tive com meu velho e ele sempre foi um cara que conversava de tudo comigo. Sempre respeitou os meus erros e acertos e sempre me contava as suas histórias de vida. E eu ria muito de tudo. Eram sempre histórias maravilhosas, mas há alguns anos umas de suas histórias marcou muito mais minhas experiências de vida, confirmando os meus eternos ideais humanos.

Estávamos sentados na sala, assistindo alguma matéria idiota de notícias idiotas, quando a TV jogou, nas nossas caras, alguns indivíduos falando muito bem da ditadura. Meu velho se ouriçou no sofá e iniciou uma chuva de impropérios aos ditos defensores do estado de sítio. Foi quando ele gritou com a TV: “porra, eu já fui preso nessa porra de governo militar! Esse caralho é o inferno!” Eu dei um salto do lugar onde estava. Minha cerveja chegou a voar do copo, pois nunca tinha ouvido essa história e essa ira tão imensa do meu velho. Meu velho não tinha falado sobre prisão comigo e ninguém da família tinha citado algo sobre esse fato. Meu velho nunca foi ligado a qualquer grupo estudantil – largou a escola na 5ª série – nunca se envolveu em partido político; como poderia ter sido preso? Não deixei passar e fui logo perguntando sobre essa prisão. Ele constrangido me disse: “tenho vergonha de ter passado por isso, nunca quis ficar lembrando”, eu, prontamente, respondi, “isso não é nenhuma vergonha, foi um período imundo na nossa História”. Então ele resolveu me contar que foram duas vezes. Contou-me a primeira vez.

Estava num bar com outras pessoas, tinha acabado de ser demitido do trabalho e resolveu parar para beber algumas e repensar a vida. Garrafas se empilhavam no balcão, a algazarra estava formada entre os bêbados do centro da cidade e, de repente, mais que de repente, uma joaninha – como eram conhecidos os fuscas da PM do Rio de Janeiro – e alguém gritou: “A POLÍCIA!” Uma correria de lá pra cá, todos tentando encontrar um caminho que pudesse impedir as mãos afoitas e criminosas da polícia nos tempos de chumbo – não que a polícia tenha mudado. Na truculência policial, meu velho acabou sendo preso. Mas, na delegacia, perceberam logo a ignorância institucional.

No segundo encontro com a dita que andava dura, foi um pouco mais pesado. Depois de passar um dia procurando emprego pelo centro da cidade, meu velho acabou sendo atropelado na Presidente Vargas e, encaminhado para o Souza Aguiar, ficou um tempinho internado. Alguns ferimentos leves e, como meu pai odiava hospital, resolveu fugir da enfermaria. Um único detalhe; esqueceu todos os documentos no hospital. Chegando perto da Central do Brasil a polícia resolveu passar uma revista no velho, com vários curativos pelo corpo, poderia ser mais um subversivo escapando da Polícia do Exército. Mais uma vez cana e desta vez foi jogado na masmorra de uma delegacia ao lado do comando militar do leste. Pelo que ele me disse muitos nem sabiam o que estavam fazendo ali dentro, o medo era um sentimento natural naquele lugar, ninguém falava qualquer palavra e era um silêncio sepulcral. Meu velho colocou as suas roupas do avesso para não sujá-la e sentou no chão imundo da cela. Alguns choravam, outros rezavam; aquele cubículo era o início da perda da humanidade. Início porque os porões do DOPS eram o fim da linha para muitos. Ninguém sabia onde meu pai se encontrava. Minha avó se desesperava em casa e começava uma corrida por todos os hospitais possíveis da cidade. Na cela ele torcia para que tudo acabasse logo e pudesse voltar para casa. Pediu um cigarro para um dos seus companheiros de cela que fumava agarrado às grades. Pegou o cigarro, acendeu e se agarrou também as grades esperando que o dia terminasse. A luz do luar do inverno carioca se despejava entre as grades naquele breu. Ficou ali pensando, odiando o Estado, escutando os sons que vinham das outras celas, pensou no quão repugnante era a sociedade em que ele vivia. Sentia fome, mas nada foi oferecido na cela fétida e imunda. As horas passavam tão lentamente que sua mente se perdeu numa enxurrada de lembranças e numa angústia indescritível. Seu corpo ficou pesado, perdia a força pelo estresse da situação, seus olhos teimavam em fechar e acabou adormecendo. Foi acordado deitado sobre um jornal velho que forrava o chão úmido e o sol jorrando pela grade da cela que iluminava um dos cantos escuros da cidade. Um policial, de camisa de botão aberta, o cutucava com o cacete. Era hora de partir, nada tinha contra ele.

Ouvindo essas histórias percebi o quão pesado foram os anos de chumbo para o meu velho. Aqueles idiotas que pediam a volta de um regime tão angustiante e cheio de mau caratismo, não merecem qualquer palavra de bom grado. Quem hoje senta a bunda e abre a boca para falar bem do ignóbil sistema opressor, sufocante e assassino merece uma boa cusparada diante da face velha e retrógrada. Meu velho odeia o passado tosco de um país que desprezou os mais humildes, que humilhou as classes responsáveis por esse lugar existir e, se ele odeia, eu odeio mais. Descobrindo anos depois o quanto meu pai sofreu, tenho em minha mente o asco por uma sociedade velha e que não resiste ao cheiro de um autoritarismo.

Levantei da cama, desejei o mal para qualquer ultrapassado que ainda exista e odiando os jovens que, bradam aos quatros cantos, desejando à volta do verde oliva às ruas. Militar serve apenas para pintar meio-fio, postes, árvores, varrer terreiro e mamar nas tetas da loba das terras do pau brasil. Acendi um cigarro, busquei as últimas gotas de whisky que restaram da noite anterior, enchi um copo e bebi como se fosse a última vez. Uma milicada passou correndo pela minha rua e meu cão foi ao muro latir. Eu levantei, me prostrei ao lado dele – que também odeia milico – e gritei: DITADURA NUNCA MAIS, CAMBADA DE BOSTAS! 

3 respostas em “Quem ama a ditadura?”

“aquele cubículo era o início da perda da humanidade” – muito bom! Dá pra perceber sua angústia no texto. Espero que seu pai esteja bem. Dias difíceis de engolir, estes!

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