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crônica

Quando aprendi a ironia da vida

e dos conselhos que a gente dá

Se os meus conselhos fossem bons de verdade, quem sabe eu os vendesse ao invés de distribuí-los por aí, de graça.

Ocorre que, como em um daqueles insights certeiros que temos uma vez na vida e outra na morte, eu dei um conselho de ouro à minha amiga amicíssima Júlia. Um conselho em que eu acreditava e em que, depois de um intenso e malsucedido test drive, passei a desacreditar. Mas não importa; afinal, para a Ju deu super certo e eis que ela bota fé nas minhas sábias palavras até hoje.

Estávamos de pé em um trem apinhado do metrô – o mais privativo dos lugares para tratarmos de assuntos pessoais, não é mesmo? – e voltávamos de um encontro com outra best. Conforme o ranger dos trilhos e o anúncio da próxima estação ecoavam no vagão lotado, a minha amiga sem saber inicia a conversa que mudaria a sua vida:

– E aí, Gui? Como vai o seu namoro? Onde mesmo você a conheceu?

– Vai bem! Vamos viajar juntos pela primeira vez no Carnaval. Espero que dê tudo certo! E, respondendo à sua segunda pergunta: foi… em um aplicativo de relacionamentos! Acredita?

– Ah, entendi. Nunca tentei… Acho meio artificial e constrangedor…

– Imagina! Recomendo muito, Ju! Eu precisei conhecer muitas garotas antes de conhecer a minha Julieta, mas, quem sabe você não encontra o seu Romeu na primeira tentativa?

E o meu conselho-profecia foi mais que preciso.

Dois dias depois, a Ju criou um perfil no famoso Tinder. Duas semanas depois, aconteceu o seu primeiro encontro com o candidato a Romeu. E, cinco anos depois, os dois passaram a viver felizes e contentes juntos com um gatinho e uma cadelinha em um lindo e espaçoso apartamento no Centro.

– Gui do céu! Seu conselho foi certeiro! – ela me diz sempre que nos vemos até hoje.

Ironicamente, eu já me separei daquela Julieta e, hoje, não me considero mais um grande fã do Tinder e de aplicativos afins. Mas a Júlia… Essa vive espalhando a palavra que dividi com ela há cinco anos naquele metrô abarrotado.

Eu tenho o hábito de tentar extrair o melhor dos acontecimentos. Desse ocorrido, até hoje me vem à mente o quão irônica a vida pode ser. Mas, para ser franco, esse episódio me ensinou algo mais. Fico pensando se existe algum tipo de predestinação na nossa busca pelo par perfeito ou se a sorte é o grande fator que pesa.

Talvez a Júlia estivesse com sorte. E talvez, mais cedo ou mais tarde, ela fosse encontrar o seu Romeu. Mas, possivelmente, ela também estivesse aberta à possibilidade de encontrá-lo de uma maneira nova. E, mais importante, provavelmente a Ju estivesse sem altas expectativas. Aí a magia funcionou.

E, claro, o meu conselho também cumpriu o seu papel definidor na vida amorosa da minha amiga. Quem sabe eu não passe a me especializar em dar conselhos em trens lotados!

Honestamente, não acho que vai funcionar. Para isso, eu precisaria despretensiosamente apostar nos meus insights e nas minhas dicas. Sem expectativas, sabe? Talvez eu precise praticar um pouco de desapego antes de encorajar o desprendimento. Mas essa reflexão certamente fica para um outro dia. Reflitamos.

8 respostas em “Quando aprendi a ironia da vida”

Adorei a crônica! É um dos grandes mistérios da vida, se estamos predestinados a nos encontrar ou se as nossas ações interferem no resultado final. Sorte ou destino, independente de Romeu ou Julieta, a amizade de vocês é mais forte e, melhor, é para sempre.

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