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crônica

Primeira vez

Outro dia perguntei pra uma amiga “se tu pudesse escolher um sentimento, sensação, evento, qualquer coisa, que não existe palavra na nossa língua que descreva, o que tu escolheria?”

Ela poderia pensar uns dias antes de responder, eu disse. 

Pra facilitar o entendimento, Dei alguns exemplos de palavras que existem em algumas línguas, e não há o equivalente em outras. 

No português, por exemplo, a palavra cafuné é de difícil tradução em outras línguas.

No dia seguinte, a resposta veio. Ela havia pensado não só em uma palavra, mas em três. E é sobre uma dessas , em especial, que quero falar. Transcrevo a resposta de minha amiga: “queria uma palavra pra explicar as primeiras sensações da vida: o primeiro sorvete, o primeiro amor, a primeira viagem, o primeiro dente caindo,…” 

Instigante a resposta dela. Por vários motivos. Principalmente por ser um assunto no qual penso bastante. Os primeiros encontros da vida, o mundo em seu vasto ineditismo.  A magia (e nervosismo, e apreensão, e surpresa, e espanto, e alegria, e tristeza,..) das primeiras vezes. O encanto ao descobrir ou fazer algo pela primeira vez na vida. A primeira vez em toda a vida.

A primeira vez na praia, a viagem de carro que parecia durar um dia inteiro. O imenso do mar que não cabe direito nos olhos, o quente da areia sob os pés. 

O primeiro voo de avião, quando aquele gigante de aço se desprende do chão e, ao subir, descortina as nuvens. 

A primeira vez em que os pais nos soltam dentro da piscina e nadamos sem ajuda. A primeira vez em que os pais nos soltam, e pedalamos (a bicicleta sem rodinhas auxiliares) sem ajuda. 

A primeira caixa de lápis de cor da Faber Castell, o primeiro desenho colado na geladeira.

A primeira boneca barbie (por sorte ainda guardada em uma caixa). A primeira bola de futebol (já perdida em algum telhado vizinho).

A primeira vez no estádio de futebol, aquele mar de gente, os jogadores tão pequenininhos.

O primeiro vídeo-game que ganhamos em um natal ou aniversário, e a primeira noite em que jogamos até o amanhecer. 

A primeira vez no cinema, o escuro da sala, a tela muito maior que qualquer Tv, o som que parecia sair por todos os lados. 

A primeira vez que dormimos fora de casa. A primeira vez que vamos sozinhos pra escola. E a primeira vez que matamos aula. 

A primeira vez no shopping.  Quando andamos de elevador ou na escada-rolante.

O primeiro arco-íris no céu, e a primeira chuva em um dia de sol e a primeira lua cheia.

O primeiro animal de estimação, que chegava em uma caixinha de papelão, tão frágil.  

O primeiro livro que nos fez sonhar com a história.

O primeiro pé de feijão que plantamos num copinho de plástico e vimos crescer magicamente. 

A primeira bolha de sabão que nasceu da ponta de um canudo. 

A primeira paixão, o coração que oscila as batidas, sem a gente entender o que acontece por dentro. O primeiro beijo, quase sempre um desastre. A primeira carta de amor que recebemos. A primeira carta de amor que escrevemos.

O primeiro namoro. A primeira noite de amor.

O primeiro emprego e a primeira promoção no emprego.

A primeira vez que dirigimos. A primeira balada que fomos. 

O primeiro “eu te amo”.

As primeiras vezes.

Conforme a vida vai deixando sua passagem em nós, dá impressão que fica cada vez mais raro nos encontrarmos com momentos assim. Em que sentimos a sensação gostosa das primeiras vezes. 

Mas, ainda assim, acredito que em alguns momentos, ainda hoje, aqui e ali, se ainda estivermos com os olhos e o coração abertos, conseguimos encontrar aquelas sensações-primeiras.

Agora escrevo este texto, sobre a sensação das primeiras vezes. Este texto será meu primeiro texto publicado em um site. 

Ao pensar nisso, aquele frio na barriga das primeiras vezes, passa, mais uma vez (e de novo) por mim. 

25 respostas em “Primeira vez”

Uau…que reflexão!! Enquanto lia o seu texto, recordei algumas primeiras vezes que já vivi. E, Nossa!! Como é boa e excitante essa sensação de iniciar uma coisa nova, de descobrir algo que nem se imaginava. Parabéns pela obra!! Você é um escritor incrível! Já estou ansiosa para ler os próximos textos.

Parabéns pelo texto, Bruno. Me fez refletir principalmente sobre como é gostoso conhecer novos lugares (gosto muito de viajar) e como podemos enfrentar as situações que a vida nos impõe, de maneira mais leve e centrada. Um abraço!

Descrição perfeita, sempre temos algo de novo ao decorrer dos nossos anos, meses e dias, essas sensações tão mágicas, foram incrivelmente explicadas por você! Parabéns, amei o texto!!!

Que lindo seria para nós se víssemos muito do nosso cotidiano como essa primeira vez. Como se abraçássemos o ineditismo de cada instante da nossa existência. Belo texto, me convidou a viajar pelas sensações-primeiras da minha história.

A crônica é leve, mas também toca fundo. A lista de primeiras vezes soou a mim como doce inventário: degustei novamente as alegrias vividas, e vislumbrei novos sabores. Delícia de texto!

Adorei o texto! Me fez voltar a algumas primeiras vezes e tentar lembrar outras tantas que nem tenho certeza se foi a primeira, mas o gosto da lembrança é como se fosse. Parabéns.

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