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Poesia

Para Manuzinha,
quando puder ler

Manu, há não muito tempo o sor começou a escrever. Nunca quis ser um escritor, nem acho que eu seja um (ao menos não um bom escritor), mas, há não muito tempo, comecei a escrever de maneira mais organizada. 

Fiz algumas oficinas de escrita e ainda as faço. Tenho aprendido aos pouquinhos (a gente sempre aprende aos pouquinhos, Manuzinha) mais sobre este grande ofício que é escrever.

No ano em que nós nos conhecemos havia a novidade espinhosa de uma pandemia a deixar tudo meio esquisito no mundo. Eu havia me formado na faculdade de Artes, arrumado um trabalho, mas então a pandemia forçou uma longa parada das atividades, para, só em novembro, retornarmos.  E foi aí que nos encontramos.

Tu foste a primeira educanda que recebi na turma. Na primeira vez que nossos olhos se conheceram, uma manhã de novembro, caminhamos juntos, para que eu te mostrasse o local que seria tua nova casa. Andamos pela sala de aula, pelo refeitório, pelo ginásio, pelo espaço da ambiental e todo o resto.

Tu era apenas uma menininha, Manu. Agradecia por tudo o tempo todo e lembro que te achei uma menina meiga e educada.

Nos teus olhos havia a cor brilhante de quem olha para uma doce novidade da vida. Tu parecia ansiosa e satisfeita por estar ali.

Nesse dia te perguntei se tu sabia ler e escrever, tu respondeu que não. Completou: me disseram que é aqui que vou aprender. 

No ano de 2021, o sor começou a estudar poesia. Nunca imaginei que escreveria ou estudaria poesia um dia. Mas, olhando agora, de alguma maneira, sinto que a poesia sempre esteve presente em minha vida, Manuzinha. 

Porque a poesia não está necessariamente atrelada apenas aos poemas.

A poesia é também o espaço faltando entre teus dentes banguelas, quando tu sorri

e a poesia também é quando tu dá corpo à imaginação tua em um desenho feito com o giz de cera,

e a poesia pode ser também muitas outras coisas que tu descobrirá conforme for crescendo.

Agora ainda não sou capaz de escrever um poema como eu gostaria, como os grandes poetas, mas quem sabe, quando tu estiver crescida, o sor consiga escrever melhor.

As coisas, Manuzinha – quase todas – necessitam de tempo. 

Hoje, choveu o dia todo. Foram poucos os que vieram à aula. Mas tu vieste. 

Vestia tua capa de chuva amarela e tuas galochas de criança. 

Quando tinha a tua idade, o sor também tinha uma capa de chuva amarela.

Mas escrevo para dizer, para registrar, (para quando tu for maior e estiver a ler as palavras sem dificuldade, na naturalidade de quando brinca no balanço) que mesmo toda essa chuva, não se assemelha em volume às lágrimas que segurei em certo momento do dia.

Não chorei na tua frente. Mas quase, Manuzinha. Quase.

Enquanto a chuva caía pesada, em um momento da manhã, pela primeira vez para meus olhos e ouvidos, desde que nos conhecemos, tu leu uma palavra inteira, sem ajuda. 

E o sor nunca poderá colocar em palavras, mesmo que um dia saiba escrever bem, o que se deu aqui dentro, ao te ouvir dizer, apontando para a capa de um livro:

– Sor, eu li aqui.Tá escrito Poesia. 

Porto Alegre, 25 de agosto de 2021.

12 respostas em “Poesia”

Lindo e emocionante! Tenho certeza que esse sentimento de “sores para Manuzinhas” incentivará muitas delas a seguir alguma carreira! Parabéns sor, parabéns sores do nosso país por essa paixão que estimula tanto! O real sentido de quem ensina e estimula! Parabéns!!!
Lindo mesmo amigo!

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