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Pandemia e Privilégios

Sim, sou privilegiada. 

É verdade. Eu tenho teto e comida. Eu tenho família. Eu tenho estabilidade financeira (será?). A minha atividade laboral permite home office. E, se tudo isso der errado, eu tenho crédito no banco e carga de estudo que me permite começar tudo de novo.

É verdade também que, um pouco pela tal carga de estudo, um tanto pela atividade laboral e muito pelo amor que sinto pela humanidade, eu tenho noção do todo. Eu não sei o que é passar fome, mas sei quantas famílias vivem na miséria no país, na América Latina, na África, na Ásia. Eu não sei o que é ter de trabalhar de dia para comer à noite, mas sei que quase 60% dos brasileiros vivem assim. Há alguns anos eu não sei o que é viver sem reserva (perdi um tanto na bolsa ao longo deste ano também – que privilégio!), mas entendo que quase 90% dos empreendedores brasileiros precisam girar o negócio todo santo mês, com um mês parado podem quebrar, e com eles vão a maior parte dos empregos do Brasil (que não estão nas grandes cadeias e corporações que realizaram demissões em massa, ainda que alguns dias parados não faça nem cosquinha em seus lucros anuais, nem um ano parado afete de fato o montante de suas fortunas).

Sabe o que mais é verdade? Que isso tudo é errado. Sempre foi escamoteado e sempre foi injusto . Está errado o banco lucrar tanto, e que boa parte desse lucro se dê em cima da necessidade e desconhecimento de quem mais precisa. Está errado o mega empresário sonegar imposto. Está errado não ter taxação proporcional sobre grandes fortunas. Está errado o salário e os penduricalhos de alguns (poucos) servidores públicos. Está errado as filhas de militar ganharem pensão para fazer nada além de existir e não casar (no papel). Está errado representantes da classe política roubarem o nosso imposto, pago com ou sem suor – quem é honesto paga imposto, seja a galera da labuta das ruas, seja a galera do ar-condicionado. Está errado o Estado permitir esses desvios, que impedem o investimento em pontos essenciais como saúde e educação, que agora fazem tanta falta.

Está errado a falta de saneamento básico em tantas regiões. Está errado os não-projetos habitacionais de amontoar gente em cubículos, de preferência o mais longe possível dos centros das cidades. Está errado o modelo de transporte público das grandes metrópoles. Está errado a distribuição tão desproporcional de renda que vivemos. Está errado a vulnerabilidade dos migrantes ou das zonas de guerra. Está errado invisibilizar os problemas reais, cotidianos, repetitivos, que tivemos séculos para resolver e escolhemos aprofundar.

Sabe os países que você quase não ouviu falar ao longo da pandemia? Ou quando ouviu foi pra saber de notícias boas? São potências capitalistas que entenderam há tempos o papel regulador do Estado na construção do bem-estar coletivo.

A nós, capitalistas selvagens, mercantilistas arcaicos, escravocratas saudosos, restará aprender na marra.

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