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crônica

O valor, o preço, o custo e o soldo

Certa vez, ainda criança, passei por uma experiência de grande ensinamento. Sentada à beira da calçada, em frente ao prédio de classe média onde cresci, assisti ao carro do lixo chegar. Assisti com os olhos e o nariz, muito empinadinho por sinal.

O cheiro desagradável exalava e a criança mimada que fui não se constrangeu em mostrar seu descontentamento ao trabalhador que por ali passava. Tampei o nariz e virei o rosto, demonstrando todo meu nojo e desdém. Não imaginava que seria jogada sabiamente encaminhada à reciclagem mental.

O lixeiro, orgulhosa e sabiamente, fez questão de chamar minha atenção:

Prefiro meu mau cheiro de trabalho que a má educação que oferece sua escola. Limpo a sujeira que seu povo faz, mas é incapaz de cuidar. Recolho o lixo que o seu povo gera, mas é incapaz de lidar. Posso ser invisível, mas sou essencial. Posso ser mal pago, mas sei meu valor. E você? O que seria de você hoje se não tivesse tantos como eu para garantir a higiene e a salubridade deste bairro onde você vive? E você? O que vai ser de você quando crescer? Será que um dia você vai crescer?


Isso aconteceu há 30 anos, mas até hoje ressoa em mim. Aquele lixeiro, naquele dia, reciclou minha mentalidade – de morte à compostagem, de papelão à arte.

E ele tinha toda razão: sem seu serviço, sua entrega e sua disposição para tocar, carregar, separar tudo aquilo de sujo que a sociedade produz, viveríamos todos encarando a nossa própria podridão.
Aquela situação me fez, mais que perceber, sentir, em tenra idade, o quão injusta é a sociedade brasileira. Os trabalhos braçais, visto que ainda relacionados à escravidão, são ofertados as pessoas de classe baixa, geralmente negras, e que seguem sendo muito mal remuneradas e até mesmo emocionalmente açoitadas. Paradoxalmente, são esses os trabalhos que garantem o bom funcionamento da sociedade. O labor de quem planta, de quem colhe, de quem limpa, de quem constrói, de quem cuida. Trabalhos invisibilizados, ainda que básicos e fundamentais. Trabalhos sem os quais tudo mais se tornaria caos.

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