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crônica

O tempo das coisas.

Como o homem das canetas me ensinou, sem querer, sobre o tempo das coisas.

Às vezes, os planejamentos levam um tempo para se concretizar. Assim como uma ideia. Um amor. Um sonho. Uma pintura. E também um texto.

Dizem que pra tudo há seu tempo.

E, ao que parece, a vida é assim mesmo. Foi isso que aprendi com o homem das canetas.

Esta história que lhes contarei, aconteceu há uns três ou quatro anos. Ou seja, já faz algum tempo. Se a retomo agora é pelo simples fato de que acabo de encontrar a caneta. Deu-se mais ou menos assim:

Eu havia acompanhado uma colega até a rodoviária, após uma aula da faculdade. Aguardamos algum tempo pelo seu ônibus, e assim que ela embarcou, dei meia volta e apressei-me a fazer o caminho da rodoviária até a parada de onde sairia o meu.

Era um início de fria noite, final de outono, acho, e o dia já havia escurecido. 

Eu andava depressa e cuidadoso, como normalmente se anda pelas ruas nessas horas do dia. Foi então que, quando eu estava quase na escadaria da Conceição (área de frequentes assaltos em Porto Alegre) um homem que não percebi de onde surgiu, me abordou.

Ele vestia uma camiseta de manga curta, apesar do frio. Tinha, na cabeça, um boné de um time de baseball. 

— Não quero teu dinheiro — ele disse. 

Acionei o sinal de alerta. Mentalmente, repassei em imagens nítidas, como se os tocasse, todos meus pertences de valor que estavam na mochila. O celular estava no bolso. A carteira com os cartões e documentos, também. De canto de olho, observei os melhores e os possíveis caminhos para o caso de precisar correr. 

— Tô vendendo umas canetas. Não quero te assaltar — ele completou, de repente. Canetas? — perguntei surpreso, mas ainda alerta.

— É dois pila cada uma.

Ele então colocou a mão no bolso de trás da calça. Me preparei pra alguma ação/reação, respirei fundo pra encher os pulmões com uma reserva de ar, e sussurrei para minhas pernas: “fiquem preparadas”. 

Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o cara fez surgir, em uma das mãos, um saco plástico, de onde, com a outra mão, puxou várias canetas. Eram canetas esferográficas com alguma frase em letras brancas escritas na lateral.

Me senti um pouco culpado tê-lo julgado mal.

— Bá, cara, vou ficar te devendo. Tô indo pra casa e não tenho dinheiro algum. Até compraria uma, pois tô precisando — eu disse e já comecei a endireitar o corpo pra subir a escadaria. Dei as costas pro homem das canetas, mas aos meus primeiros passos, escuto a voz dele:

— Pera aí. 

Liguei o alerta de novo. Ao me virar, ele estava com apenas uma das canetas na mão, o braço estendido em minha direção. 

— Pega aí, fica pra ti.

Pela primeira vez, então, reparei nos olhos dele. Eram verdes. 

Fiquei sem reação na hora.

— Vamo, pega antes que eu mude de ideia. 

Peguei a caneta que ele me oferecia. Era uma caneta verde, o mesmo verde que ele tinha nos olhos. Agradeci o máximo que eu pude e segui meu caminho até a parada do meu ônibus.

Quando me acomodei no assento, fiquei pensando no que havia acabado de acontecer. Eu tinha a caneta na mão direita, a cabeça recostada no vidro do ônibus. Por conta da melhor iluminação que ali tinha, consegui ler as palavras gravadas na caneta: Arte e Cor. 

Senti que eu estava profundamente tocado com esse momento, o gesto do homem. Durante o trajeto, levei a mão que segurava a caneta até o peito, próximo do coração. Depois a guardei na mochila e passei o trajeto pensando que sequer tinha perguntado o nome dele.

Em casa, larguei minhas coisas, peguei a caneta na mochila, mostrei ao meu irmão e disse, “nem sabe o que aconteceu”.

Fui contando a história em detalhes, enquanto me arrumava pra começar uns trabalhos.

Abri o caderno, apertei a tampa da caneta e observei a ponta sair de dentro. Levei a ponta até o papel e risquei.

 Nada. 

Tentei mais uma vez e nada. Ergui a caneta e sacudi no ar algumas vezes. Voltei ao papel e nada. Abri o caderno nas últimas páginas e risquei com força.

Nada.

Depois dessas tentativas, desenrosquei o corpo da caneta, removi o bico e peguei o compartimento do reservatório de tinta.

Estava branquíssimo de tão vazio. Quase como se nunca tivesse feito contato com tinta na vida.

Recoloquei as peças em seus lugares, peguei a caneta com o indicador e o polegar e levei até a altura dos olhos.

Arte e cor, eu li as palavras.

Pus a caneta em cima da mesa, peguei outra no estojo, olhei pro meu irmão com um sorriso no rosto, mas não lhe disse nada.

Pensei: “vou guardar essa caneta só pra não esquecer dessa história, uma hora quem sabe um dia talvez escreva algo sobre tudo isso”

Eis aí.

Por Bruno Fraga

Formado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Gostava de ler e escrever, mas começou a levar as duas partes com seriedade só a partir de 2019, ano em que iniciou os estudos em escrita criativa.
Foi em 2019 também que estreou como autor,  o livro coletânea Pequenas Histórias de Porto Alegre, pela editora Metamorfose.

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