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O segredo do meu pai

Meu pai dirige há quase 50 anos sem receber uma única multa. Indagado sobre seu segredo ele costuma responder: “Não tem segredo: é só respeitar as regras de trânsito. Se não é pra ultrapassar dos 40, não ultrapasse dos 40. Se é pra parar, pare.”

Fiz do mantra dele o meu, coisa que costuma enlouquecer minha esposa:

— Por que você tá freando?

Estamos em plena BR e à nossa frente está tudo livre. Nem um carro à vista.

— Aqui é 40, não viu a placa?

— Vi, mas era só uma placa de velocidade, não tem fiscalização. Pode ir.

— Quando é pra não ultrapassar dos 40, não ultrapasse dos 40 — recito meu pai.

Ela respira fundo.

— Tá. O que tem que acontecer pra você voltar a acelerar?

— Tem que vir uma nova placa que indique uma nova velocidade máxima, ué.

— Oh, meu Deus — ela olha o relógio. — Assim vamos chegar atrasadas.

— Melhor atrasadas do que nunca. — Outra máxima do meu pai.

Larissa dá uma olhada pelo vidro da frente, varrendo a beira da estrada até o horizonte em busca de uma nova placa, que não vem. O asfalto abre caminho em linha reta pelo sertão. A estrada é boa, parece recém-feita. Atrás da gente o mar, à frente a serra. O céu já está mudando de coloração. Não tem outros carros, nem outras ruas, curvas, ladeiras, nem nada que justifique um limite de 40 km/h. Mas para mim, a placa é justificativa suficiente. No fim das contas, alguém deve ter pensado alguma coisa antes de colocá-la aí. Que a gente não conheça o motivo não significa que ele não exista. Meu Deus, pareço meu pai falando…

— Deixa eu dirigir? — Uma nova tentativa da Larissa.

— Aqui não tem como encostar.

Ela olha pelo retrovisor.

— Não tem carro vindo em pelo menos dois quilômetros. É só parar.

— Aqui não pode.

— Vai dizer que viu uma placa “proibido parar”?

— Não precisa de placa; não pode ficar parado no meio da BR.

Ela bufa e olha pela janela.

— Relaxa e desfruta da paisagem — digo. É o que eu fazia quando ia no carro com meu pai.

Meia hora e exatamente 20 quilômetros mais tarde vislumbramos uma nova placa. Do meu lado, Larissa fica excitada enquanto nos aproximamos. Ela tenta esconder, mas eu percebo. Sei, inclusive, o que ela está pensando: “60 ou 80? Tomara que 80!”

Chegamos mais perto. 40.

— Não acredito! — Larissa se deixa cair para trás no assento e fecha os olhos.

A estrada continua por quilômetros e quilômetros em linha reta. Nenhuma curva, árvore, buraco, nenhum veículo ou ser humano, nem mesmo um cachorro de rua que poderia resolver, de repente, pular na frente do único carro no perímetro de 100 quilômetros. E eu continuo dirigindo a 40 por hora. Nem mais nem menos. O segredo do meu pai é esse.

Por Yvonne Miller

Yvonne Miller nasceu em Berlim em 1985, mas considera-se cidadã do mundo. Atualmente mora, namora e se demora no Nordeste do Brasil. Escreve contos, crônicas e literatura infantil em alemão, espanhol e português. Tem textos publicados em coletâneas como Paginário (Aliás Editora), Histórias de uma quarentena (Expresso Poema Editora) e é colunista do coletivo sócio-literário @bora_cronicar. Além de ficcionista é autora e redatora de livros escolares.

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