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crônica narrativa

O QUE VOCÊS QUEREM DE MIM?

O que vocês querem de mim?

Me faço essa pergunta todos os dias, como deve se perguntar, todos os dias, um pássaro trancafiado numa gaiola de 40 por 20. Acho que é assim que me sinto. Nem sei mais quanto tempo perdi tentando encontrar a porta da sala vazia em que me encontro. Ou talvez tentando achar a poção mágica da Alice para conseguir crescer e tentar fugir pela claraboia. Se vou ao bar pela manhã, para tomar o café aguado que tem por lá, me irrito com o som das vozes dos contentes matinais. Detesto as pessoas que acordam felizes e chegam nos lugares cagando pela boca com seus timbres repugnantes de autoengano. A alegria é tão falsa que chega a deixar um cheiro azedo de bocas ainda babadas do maldito sono da noite passada no ar. Creem serem filósofos da felicidade inexistente e que nem eles acreditam de fato, são apenas reprodutores de uma falácia das convenções sociais. Como eu queria socar a fuça dessas marionetes do sistema. Muitas vezes o café, que já é desprezível, me desse pela goela com o gosto de água podre – mas também é o que o meu mísero dinheiro permite. 

Outro dia comendo um pão com manteiga na chapa, no mesmo estúpido bar, percebi que estou me transformando num nostálgico, de papel assinado e registrado em cartório. Detestei a vida inteira a nostalgia e principalmente os canalhas nostálgicos que se debulham em lembranças ordinárias de um passado mais ordinário ainda. Triste de mim que nesse instante tenha me tornado o mesmo canalha com lembranças ordinárias. Logo eu que tive – e continuo tendo – a vida mais ordinária possível. Eu, eu mesmo, o que não tem rés vintém para tomar uma bosta de um café decente. Quando percebo que a nostalgia começa a fervilhar pelas entranhas do meu cérebro, tenho vontade de socar a minha própria cara. Devo admitir que em estagio de embriaguez elevada, ás vezes, acabo fazendo isso mesmo, para acordar com o queixo dolorido e um com algum hematoma que só vou lembrar no fim da noite seguinte. Mas devo deixar bem claro que o único ser que me alivia brevemente do meu vazio, é uma boa garrafa de bebida vagabunda.

Queria saber estar vivo, mas essa foi uma qualidade que nunca adquiri nesses longos anos de existência sem sentido. Melhor dizendo: existência vazia. Relações vazias, trabalhos vazios e bolsos vazios. Nada mais justo para uma pessoa que teve raiva desde o dia em que soube que duas pessoas decidiram que deveria caminhar por esse medíocre planeta. Pouco importa, pois nada disso interessa a vocês, acredito. Lendo frases de um velho sem nada a dizer, desprovido de qualquer sentimento relevante e que odeia quaisquer coisas que tenha relação com a humanidade. Então não leiam!

Opa, acho que deveria ter escrito isso no começo do texto. Foda-se, preciso abrir uma cerveja. Ficará no fim mesmo.

Por Walmor Barba

Historiador formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Arquivista pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Um carioca apaixonado pela literatura, que sempre desejou dizer algo sobre o dia a dia de uma cidade caótica e perdida em sua própria bestialidade.
Acredita num país que já nasceu derrotado e faz da derrota a sua força de escrever.

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