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crônica narrativa

O Ladrão de Lágrimas

Havia esse ladrão de lágrimas na cidade e posto que a cidade era um qualquer municipiozinho quase uma vila, ninguém prestou muita atenção no início das ocorrências. Só que a coisa foi escalando, escalando, escalando e quando o noticiário das vinte foi ao ar com sua primeira reportagem completa sobre o tal ladrão, quase um estado inteiro já não podia chorar.

As mais afetadas foram as mulheres e as crianças, já que naturalmente tendem mais ao pranto. Porém, mesmo os homens, até os que só choravam escondidos, estavam receosos de terem suas lágrimas furtadas. 

Quando a coisa ascendeu ao patamar nacional e todo o país já não chorava, o líder da nação declarou estado de calamidade: o maior dos infortúnios acendeu a luz da consciência quando constatou-se que se alguém tentava chorar apenas gargalhadas saíam.

Isso talvez fosse o mais vil e perverso, pois o país já passava pela gripe canina, uma pandemia que já durava dois anos, somando centenas de milhares de mortos, enquanto o líder da nação, negacionista que era, dizia que as vacinas contra a gripe canina transmitiam a gripe felina e a população ficava confusa e sacrificava seus cãe e gatos pelo que as crianças e pais e mães de pets queriam chorar ainda mais e quanto mais entregavam-se ao choro mais gargalhavam. Foi um tempo deveras sinistro e sombrio. 

Tão logo a tragédia alcançava a escala global que em meio à desventura toda houve o terrível caso da moça que conservava o hábito de chorar por qualquer coisa, e, por ter essa facilidade para prantos, tentou chorar de rir e riu e riu e riu a fim verter uma lagrimazinha mesmo doce que fosse, mas não deu em nada. Em verdade, deu: de tanto rir a moça sucumbiu ao infarto. O caso foi noticiado mundo afora e os jornalistas, imprensa e telespectadores de todas as mídias pelos cinco continentes riram muito naquela noite. 

Quando finalmente o ladrão de lágrimas foi pego, revelando onde escondia os mares de lágrimas, a humanidade pode, enfim, voltar a chorar. 

Porém, no instante em que todos os olhos do planeta choraram em uníssono, não houve só um segundo dilúvio, mas também um terceiro, um quarto e um quinto. 

Depois que os dilúvios cessaram, pasmem, a humanidade ainda estava inteira, embora houvesse alguns afogados e outros náufragos perdidos. Entretanto, as mulheres agora choravam apenas quando preciso e se de fato necessário e os homens não mais envergonham-se de deixar uma ou duas lágrimas caírem.

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