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O dia em que adotei um avô

O velhinho estava passando o aspirador com rapidez e eficiência. O seu braço, segurando o cabo da máquina, ia para frente e para trás enquanto o homem, concentrado, avançava pelo pequeno alpendre.

O meu cansaço físico, intenso depois da íngreme subida que eu acabara de encarar a pé, era evidente no meu suor e na minha respiração profunda. Aproveitei a visão do idoso, claramente mais disposto que eu naquele momento, para parar por um instante na calçada e recuperar o fôlego. Comecei, então, a observar.

O alpendre me parecia ter saído do cenário de um filme. Dos anos quarenta ou, no máximo, cinquenta. A fachada da frente, com amplas janelas, permitia que eu visse da rua as estantes fixas na parede oposta. Cheias de livros, imagens religiosas e retratos. Havia uma mesinha de centro, em cima da qual o jornal – daquele dia? – repousava. Uma poltrona com um estofamento descascado, cuja espuma eu conseguia ver de longe, estava encostada contra uma das paredes.

O calor era forte e eu queria chegar em casa logo. Mas a curiosidade, atiçada pela visão daquele velhinho tão ativo e concentrado na limpeza doméstica, motivou-me a ficar mais um pouco sob o sol escaldante.

A casa à qual o alpendre estava anexado era térrea, pintada de um amarelo desbotado e, a julgar pelo que eu podia ver da calçada, tinha um quintal nos fundos. Um Monza verde-musgo estava estacionado à frente do anexo. O muro, que separava a garagem ao ar livre da calçada na qual eu estava, era baixo e sustentava um gradil delicado. Em alguns pontos, a cerca de ferro estava coberta pela ferrugem alaranjada, que me passava uma impressão de decadência. O morador daquela casa claramente dava o seu melhor para conservá-la, mas talvez o seu melhor não fosse o suficiente que aquela construção pedia.

A propósito, qual seria a história daquele morador?

Decidi que ele era viúvo e pai de dois filhos já adultos. Decidi também que ele era um engenheiro aposentado e que, tendo trabalhado por mais de vinte anos em uma multinacional estrangeira, dedicava os seus anos restantes à leitura de jornais e de romances de páginas amareladas.

Decidi que aquele homem, embora sisudo, era feliz na sua solidão.

Tirei o celular do meu bolso e fiquei encarando o aparelho. Eu estava me esforçando para disfarçar a curiosidade, que me fizera ficar parado ali na calçada, em frente à casa antiga.

Esse velhinho, sério e meticuloso, lembrou-me do meu avô paterno, já falecido. Talvez por conta das minhas memórias de infância – já bastante borradas pelos mais de vinte anos que tentaram apagá-las persistentemente – eu me lembrava de um senhor magro como aquele velhinho, igualmente ativo, de cabelos brancos e expressões graves.

O meu avô, fugitivo da grande guerra e testemunha do dilaceramento dos homens, soldados submissos a nações-estado e a líderes-estadistas, também era sério, sisudo e focado. Ele havia perdido muito, mas não perdera a esperança no novo mundo a um oceano de distância.

Zygmunt Formicki morreu velhinho e enquanto dormia. A sua morte foi consequência de um enfarto silencioso e fulminante. Pelo menos na hora derradeira, Deus poupou o meu avô do sofrimento, até então recorrente.

Mirei então o velhinho do alpendre e decidi que ele era um homem saudável e que nunca pereceria de um mal do coração.

Decidi também que, dali em diante, aquele velhinho, saudável, imperturbável e obstinado, se tornaria o meu avô querido.

Dedico essa crônica à memória do meu avô, falecido em 13 de dezembro de 1999. Espero que o senhor esteja em paz, vô.

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