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crônica

“O baile da Morte Vermelha” nos tempos atuais

DISCLAIMER: Esse artigo tem spoilers do conto.

Edgar Allan Poe é um escritor consagrado por seus contos sombrios e macabros. Um dos mestres do terror clássico na literatura e percursor do gênero policial, Poe entrega atmosferas misteriosas em todos os contos e poemas de sua vasta obra.

Mas quem diria que um conto de 1842, de poucas páginas, poderia falar tanto sobre a realidade política que estamos vivendo em meio a primeira crise sanitária da década de 2020?

Edgar Allan Poe (1809-1849)

O baile da Morte Vermelha” é um dos contos mais conhecidos de Poe (e um dos meus preferidos). Logo no começo do conto, somos apresentados a como a praga intitulada de Morte Vermelha atua no organismo da vítima, além de saber que ela matou quase metade da população e como o Príncipe Próspero, monarca do reino está despreocupado e feliz com tudo isso. Ele está tão despreocupado que chama mil de seus amigos mais sadios para se isolarem em uma de suas várias propriedades, com o objetivo de fugir da praga.

Lá dentro, Próspero diz que ninguém pode falar nada sobre a Morte Vermelha, muito menos lamentá-la, alienando de alguma forma seus hóspedes, da mesma forma que o nosso Presidente da República agiu no começo dessa pandemia: minimizando o potencial letal do coronavírus, incentivando todos a agirem normalmente.

Para, de alguma forma, “comemorar” o fato de que estão seguros do contágio, Próspero organiza um baile de máscaras, mostrando a negligência do regente em relação a seu povo. Próspero é uma representação completa do Presidente Jair Bolsonaro e as condutas da personagem no conto não se divergem das condutas do nosso Chefe de Estado durante os 7 meses que a COVID-19 se instalou no Brasil.

O príncipe é negligente e despreocupado, não ligando para o genocídio de seu povo, dando foco apenas para quem ele quer, igual a Bolsonaro que durante os primeiros meses depois do anúncio da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a letalidade que a COVID pode causar e a implementação do isolamento social como método preventivo, fez encontros colocando a vida de várias pessoas em perigo, incentivou aos seus eleitores a se aglomerarem para “boicotar” o isolamento social, além de promover um remédio onde sua ineficácia foi comprovada e tantas outras ações irresponsáveis.

O total desprezo pela vida foi evidenciado por Bolsonaro diversas vezes, como, citando algumas pérolas do Mito: “Eu não sou coveiro, tá?”, ou a melhor, na minha opinião, “Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Voltando para o conto, Próspero realiza esse baile de máscaras. Até aí, nada o preocupava, até que uma entidade, uma pessoa que ninguém conhecia entra no castelo. Ela está trajada de vestes negras e com uma máscara cobrindo o seu rosto totalmente. Próspero logo identifica essa entidade e então é revelado para os leitores que as vestes da entidade, assim como a sua testa estão salpicadas com sangue. É revelado que essa entidade desconhecida e indesejada é a personificação da Morte Vermelha.

Ilustração: Harry Clarke – Livro “Contos de Imaginação e Mistério”, Editora Tordesilhas

Próspero tenta até lutar com ela, mas ele acaba sendo morto pela praga, assim como os seus mil amigos sadios, transformando esse reino Próspero em uma cidade fantasma com o solo encharcado de sangue.

Para esse final, eu vejo como as ações do príncipe levaram ele a perecer, e como as ações do nosso Presidente da República levaram ele a contrair o vírus da COVID-19. A semelhanças são poucas, não?

Por fim, eu acabo esse artigo exaltando a genialidade de Edgar Allan Poe em ter conseguido relatar a completa irresponsabilidade, desprezo e negligência à vida por parte de líderes políticos, séculos antes de tudo isso implicar nas mais de 121 mil mortes que a COVID-19 deixou no Brasil e 848 mil, no mundo todo.

2 respostas em ““O baile da Morte Vermelha” nos tempos atuais”

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