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O ano que não começou

“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” era o grito de fúria de Belchior na sua canção de 1976. Mas o que poderia dizer o cearense de Sobral de um ano que não começou? 2020 é o ano que não poderia entrar nos calendários, um ano jogado as traças, perdido num caminho sem volta e sem sentido, um ano com cara de realidade paralela, um Big Bang fora de época. O planeta girando numa guerra contra um inimigo invisível, sem fuzis, sem mísseis, sem encouraçados ou caças, mas com um poder letal que, apenas no brasil, de quase metade de Hiroshima e Nagasaki. Já passavamos nesse país subalterno uma destruição social de magnitude que não se conta na escala Richter e a pandemia histórica chega para piorar o que já não era bom. Nessa nau sem capitão, entregue a própria sorte nos mares da vida, embarcação entregue ao grumete em sua primeira viagem; o naufrágio é certo. É isso que vivemos nesse país, onde não tinha pecado abaixo da linha do Equador, nesses tempos tudo é pecado, menos mentir e matar quem menos tem. Isso me aflige tanto, que acendo outro cigarro. Contornando as dificuldades, a ignorância, 2020 mesmo sem ter começado, tem feito muitos estragos para nossa sanidade e para nossas esperanças. Oito meses se passaram desde o primeiro segundo do dia primeiro de janeiro e o ano não trouxe nada de importante, apenas nos tirou.

O brasil segue sua marcha frenética ao precipício, a passos larguíssimos. Enquanto o país vem descendo a ladeira, esse ano nos levou Moraes Moreira. Uma retirada tão dolorida das nossas vidas quanto a picada de um escorpião. Pouco depois, com o vírus se espalhando como sarampo pelo corpo, sem podermos mais viver a velha vida noturna, ele nos leva Aldir Blanc, poeta refinado da malandragem mais vagabunda de um Rio de Janeiro que não existe mais. O que esse ano quer da gente, acabar com os nossos prazeres? Flavio Migliaccio estava tão desgostoso dos rumos que a humanidade tomou que desistiu de seguir na luta. Entendo perfeitamente as suas angústias, pois as muitas que ele tinha me perseguem sem dar uma brecha. Nos traços de um ano sem propósito, foi-se um professor de muitas crianças do meu tempo: Daniel Azulay perdeu para o inimigo invisível e nós perdemos um pouco mais as cores. Não contente, o ano nos tira o Mamba-Negra e o Pantera Negra, resistências na luta contra o maldito racismo institucionalizado. Kobe Bryant e Chadwick Boseman se foram vendo a luta muito distante do fim, continuam matando Marielles, Ághatas, Joões Pedros, Gergoes Floyds e tantos outros incontáveis casos. Poderia passar dias citando outros mais, mas minha dor me pede para deixar apenas esses nomes. Viver parece o castigo de Sísifo. O ano das ilusões perdidas não deixa um segundo de respiração, um segundo de sorriso, o ano é um sofrer intermitente. É acordar esperando o pior.

Abrindo uma breve nota, o planeta está girando ao contrário. No país onde você sabe que uma criança é estuprada, engravida, faz um aborto e vira criminosa. No entanto uma “religiosa” mata o marido e tudo se passa como algo que acontece. A morte vale mais que a vida: perdemos o sentido.

Sendo mais otimista, o sentido da vida acabou. Beber tornou-se um elixir de alívio às condições que nos encontramos. Enquanto escrevo esse texto as minhas mãos tremem, o suor escorre pela minha face e levanto para buscar uma garrafa de vinho e poder seguir sentindo. Abro a garrafa com o coração apertado, meu cão me observa com olhar de proteção, a rolha salta e despejo o líquido rubro na taça surrada. Dentro da minha cabeça sopram mais de cem mil mortes, sinto que posso ver os olhos molhados dos que perderam quem amavam. Sinto um princípio de ataque de pânico e despejo a uva fermentada para dentro do meu corpo. Penso nos mortos, penso nos filhos dos meus amigos, penso na dor de sobreviver num planeta o qual apenas nos pede para viver. Penso nas outras espécies correndo das chamas que atormentam pantanais, gerais, serrados e amazônidas. Corro para o quintal e sento debaixo do algodoeiro, abraço as pernas encolhido feito um feto, meu cão senta ao meu lado, lambe meu rosto e deixa que sua cabeça descanse sobre o meu ombro. Sinto um pouco paz.

1 resposta em “O ano que não começou”

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