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O abismo

Dizer que somos o país mais desigual do mundo não carrega a força da realidade. Não somos uma sociedade apenas desigual. Temos um abismo em nosso centro.
Somos um abismo. E nele caímos, dia após dia, num sem fundo sem fim.

Você tem usado o serviço Uber? Você conversa com os motoristas que lhe prestam o serviço? Eu sim. E a cada corrida sofro e me desespero mais. Hoje, chorei.

“Este governador é um palhaço. Usando desculpa de doença para cancelar eventos. Sabe o que eles querem? Destruir o mito. Mas sabem o que eles conseguem? Destruir o trabalhador. Por que não fecha o supermercado? Por que o ônibus está lotado? O vírus não vai nesses lugares por acaso? Prende todo mundo que anda sem máscara e pronto. Deixa o povo trabalhar. Você vai ver: ainda vão descobrir que boicotam a vacina só pra deixar todo mundo trancado em casa até o fim do ano”.

Perguntei se ele conhecia alguém que contraiu o vírus e que morreu em decorrência da doença. Sim e sim. E f%$&-se.

O fato de nós, e principalmente aqueles mais próximos do fosso social que nos define, estarmos completamente habituados à morte, estarmos morbidamente anestesiados quanto aos jovens fins evitáveis e injustos – tudo isso muito antes de qualquer vírus chegar por aqui, deixa a ideia de “mais de 500 mil” como um simples borrão na lente de ver a realidade. 

Esfrega a lente, deve estar suja. Talvez seu grau tenha aumentado, isso acontece. Estica o braço aí que você vai ver direito. O problema não é a imagem, são seus olhos. “Se tem vida, tem morte. Pra frente, Brasil”. É ou não é?

Eu não tenho contra argumentos e nem mais força para contra argumentar. Tenho consciência do privilégio que é ser eu, daqui encarando o abismo como um Nietzsche.
Saio de uma casa pra lá de confortável, usando um aplicativo pra lá de útil, para um emprego pra lá de bom, em instalações pra lá de seguras, e tudo isso sustentado por um salário (até hoje, pelo menos) pra lá de garantido. 

Eu não sei o que é precisar da economia girando, sobre as rodas de um veículo, das 4 da manhã às 8 da noite, como aquele homem com quem tentei conversar. Eu não posso estar certa por ele. Ele não pode saber menos da realidade dele que eu.

Ele me disse sobre como o preço da gasolina aumentou e vai aumentar mais, e mais, e mais. Disse que o aluguel do carro teve reajuste na virada do ano; na contramão do recebido pelas corridas, que vem diminuindo. Comentou com raiva – e, ainda que eu saiba que não era de mim, temi. A raiva na beira do abismo é perigosa.

Eu quis falar sobre a desvalorização do real diante do dólar; as tentativas capengas de privatização das nossas bacias de petróleo; a concentração de renda nas mãos daqueles que podem ter mais de um carro para alugar e, assim, definir o preço da oferta; o aplicativo que é uma ótima ideia para criadores, acionistas e consumidores, mas o caminho certo para aniquilação da humanidade dos prestadores de serviço. Eu quis, mas nada disse. Nada disso existe naquela realidade que corre paralela a minha. E eu sinto muito. Nos diversos sentidos que essa expressão pode carregar. Eu sinto, mas não digo nada. 

A corrida acabou. Ele me pediu cinco estrelas. Eu não quis dar. Mas eu dei. Porque eu tenho as estrelas de que ele precisa. E a raiva dele à beira do abismo as roubou de mim.

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“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você” – Friedrich Nietzsche 

Por Patricia Baldez

Brasiliense de nascimento, no cerrado plantei duas graduações – Comunicação e História – e dois filhos – Gabriel e Otto.

Na floresta, lá na fronteira do que não existe, reguei árvores e voltei a cultivar o amor pelas palavras.

Agora, no Nordeste, o terreno, a semente, o fertilizante e a poda de um livro se encontraram. Rego com a água do mar, cheio de sal e ondas. E escrevo por aqui enquanto espero florescer.

2 respostas em “O abismo”

Nossa, Patrícia do céu, que agonia! Você conseguiu transportar bem direitinho. E ainda tem a reflexão do Nietzsche, e as cinco estrelas… me identifiquei tanto com você!

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