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crônica

NINHO

Solidão é uma palavra fora do meu vocabulário. Não existe solidão para quem não se sente só, não há solidão se você tem amigos de outras espécies. Passo os meus dias observando os pássaros, as plantas, papa-moscas e tudo que a natureza pode me oferecer, dentro do meu ninho, sem nada em troca. Apesar de sermos uma espécie que tem o prazer de ofender a quem nos dá tudo que precisamos. Isso é uma característica de um grupo que se acha dominador do impossível; a humanidade tem um “q” de megalomania extremamente irracional. Creio numa deformidade, um tanto quanto, por conseguirem erguer o polegar num aceno de “positivo”. Poucas coisas são tão inoportunas quanto uma espécie desconectada do meio em que vive e se autoproclamando o único ser racional. Pobre espécie desumana. Mas sigamos ao ponto em questão.

Acordei em mais uma manhã com uma ressaca pesada, os olhos grudados pelo ressecamento que eu sofro nos dias de umidade baixa, meu cão lambeu meu rosto e pisou no meu peito. Os primeiros raios de luz solar entravam pelas gretas da janela, os pássaros perambulavam sobre as casas derramando os seus mais diversos cantos. Deixei-me escutar, saboreando as notas que se estendiam pelo ar pesado de nossos dias. Acreditei vê-los sobre minha cabeça e saltitando de galho em galho. Não obstante parecerem tão próximos de mim, um canto parecia muito mais próximo. Notas tão precisas, tão constantes, que pareciam de um pássaro grande e com garganta potente. Porém percebi que conhecia aquelas notas. Levantei cambaleante, meu cão correu na frente, segui o canto que me levou ao corredor de entrada de minha casa. Diante dos meus olhos ainda embaçados, no velho lustre que pendula do antigo teto do corredor, se agarrava um ninho precisamente construído e uma pequena cambaxirra se equilibrava de pernas para o ar, cantando e alimentando os seus filhos recém-eclodidos de seus pequenos ovos. O lustre balançava com os movimentos afoitos dos pequenos que estavam conhecendo o mundo pela primeira vez e tentavam imitar o canto de sua divina protetora. Seus olhos provavelmente viam poucas coisas do mundo cruel que os esperava e sua mãe, determinada, os alimentava e os protegia com todo amor que só uma mãe pode ter; o único amor verdadeiro e infinito no planeta azul. Senti uma emoção com tudo aquilo que presenciava, pois percebi que meus olhos umedeceram e o ressecamento desapareceu da minha visão. Fui ao banheiro, lavei o rosto, abri uma cerveja, acendi um cigarro e decidi que passaria o dia inteiro observando o vai e vem de Araci – foi o nome que dei a ela – no amor aos seus filhos.

Acomodei-me numa cadeira defronte ao corredor, meu cão se deitou ao lado e me perdi no pendular e no canto de Araci e seus pequenos. Em alguns momentos Araci saia voando feito uma flecha, em disparada, e cruzava o pequeno gradeado da porta com toda destreza sem tocar o metal. O lustre balançava com os movimentos dos pequenos e eu podia ouvir o canto de Araci nas proximidades buscando o alimento sem perder as suas crias de vista. O ninho, no formato de uma bola, tinha a sua saída virada para o lado da porta que dá para a rua. Araci tinha pensado em tudo ao preparar seu berçário para que pudesse sair e voltar sem dar muitas voltas e para quando seus pequenos pudessem voar não terem dificuldades para ganhar o mundo. A perfeição em que a vida natural se faz é tão fascinante que não há possibilidade de perder um segundo. Mas nossa espécie humana perde infinitos segundos com coisas inúteis.

Araci foi e voltou muitas vezes com o papo cheio para alimentar suas crias e, de pernas para o ar, não deixou um minuto de cantar quando voltava para o calor dos seus. Algumas vezes eu temi o tombo do ninho por tanto balançar o lustre, mas eles são competentes nas suas construções, não haveria desastre. Aquela miudeza de bico, penas e asas tinha a certeza da mãe absoluta e nada poderia fazê-la parar de ir e vir no bailado do seu corpo frágil para alimentar suas crias. Tudo era tão organizado, sem planilhas, sem anotações, sem teses, sem pesquisas, apenas o que ela tinha guardado dentro de sua pequena cabeça, no seu bambolear de pernas para o ar.

Quase ao anoitecer ela voltou em definitivo. Dessa vez ela entrou diretamente no ninho, aconchegou-se entre seus pequenos e acomodou-se para dormir um sono tranquilo. O viver diário estava encerrado, amanhã seria um novo dia e ela repetiria tudo novamente sem pensar em outra coisa: Ela era para os filhos e os filhos para ela. Eu, sem perceber que o dia tinha passado por completo, sorri. Levantei da cadeira sem perceber que sai dali apenas para ir ao banheiro e pegar mais cervejas, fui me acomodar no quintal. Abri outra cerveja, acendi outro cigarro e chorei a saudade de minha mãe. Nesse instante entendi mais ainda a importância de se viver natural e o quão valioso é o feminino nesse mundo irracional.

2 respostas em “NINHO”

Li em voz alta até o final. De emocionar. Passei a leitura ao meu pai, que leu sozinho na varanda, ouvindo uma cambaxirra também. Que coincidência, não? Ele devolveu o celular emocionado.

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