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NAVIO NEGREIRO

Por muitas vezes eu me perdi pensando quantos negros da costa africana se perderam na imensidão do oceano atlântico, lançados ao mar morto pelas condições tenebrosas em que se encontravam nos porões fétidos e humilhantes dos navios de traficantes. Amontoados entre madeiras úmidas, amarrados as correntes enferrujadas, misturados a tudo que era posto para fora de seus intestinos, bexigas e estômagos. Homens, mulheres e crianças lançadas à própria sorte de doenças, a caminho de um trabalho desumano e covarde que os esperava em terras americanas. Uma diáspora tão angustiante e canalha que quase não acredito como conseguiram chegar nessas paragens com vida. Não poderia ser considerada vida, pois o que os esperava era um trampolim para morte entre canaviais, minas insalubres e açoites descabidos. Estudos indicam que a média de vida de um escravo, nos canaviais de Paraty, não passava de nove anos. Cada navio que chegava ao porto das costas brasileiras eram recheados de dor, lamento, saudade e muitas mortes. Eram praticamente navios fantasmas apinhados de sonhos perdidos, culturas separadas, corpos destruídos e uma confusão de línguas ancestrais que se perdiam no caminho. Esses povos jazem nos solos americanos e nas águas do oceano.

Nesse instante, sentado numa cadeira de metal em meu quintal, num calor infernal que impera na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, nenhuma brisa, abrindo mais uma cerveja e fumando mais cigarro, me perdi pensando nos transportes desumanos que correm por essas bandas. Trens, metrôs, ônibus, tudo envolto numa realidade de desumanização de pessoas que passam por tal aperto todos os dias. Pessoas que vão e vem dos cantos mais distantes entre a capital e cidades do seu entorno, esmagados entre corpos suados, cansados e explorados na necessidade da sobrevivência. Rostos com sonhos, saudades dos seus, mãos cobertas de calos, pernas de veias saltadas e apenas a esperança de ter algo para comer e o que fazer no tempo que lhe sobra. Os transportes públicos são a versão moderna dos navios negreiros (guardada as medidas proporções). Em meio à pandemia ele se torna um navio negreiro tão perigoso quanto. O ar se misturando entre máscaras em rostos aglomerados; ventilação é uma coisa que falta nos transportes dessa cidade. Milhares de pessoas arriscando suas vidas para manter o isolamento de alguns; as madames não podem arrumar as suas casas, os patrões não podem diminuir seus lucros e a única esperança dessa gente que se aglomera pelo capital, é torcer para não morrer ou matar quem ama. Jardins, Leblons e tantos outros lugares, são os traficantes de escravos da modernidade imunda, de um país de fidalgos sem títulos e que se perpetuam presos a nomes mortos e maltrapilhos.

As grandes cidades de um país que não deixou de ser colonial, agarrado à um passado desonesto, furtador, cruel com os seus, está inundado de navios negreiros e senzalas atrozes. A ganância, a infâmia e todas as necessidades desnecessárias transformam o humano em nada mais que um pedaço de carne errante. Os abastados são fúteis e os pobres sobrevivem. Os abastados perdem porque destroem o que nos faz viver e os pobres são destruídos pelas consequências dos anseios dos abastados. Ninguém ganha, todos perdem. Derrota sobre derrota. Como disse uma vez Schopenhauer “o mundo está arruinado em todos os aspectos e a vida é um negócio que não cobre os custos” permite que possam me chamar de pessimista e outras coisas mais. Porém uso as palavras de Cércidas de Megalópolis para que se entenda que o ser humano não é tão palatável: “Não há ninguém que tenha por um instante lançado um golpe de vista sobre a humanidade sem amaldiçoá-la”. Os tempos sempre foram pesados e dolorosos, mas o tempo mais pesado e doloroso é o que se está vivo. Estar vivo já é uma luta.

Meu cão latiu e me trouxe de volta dos meus devaneios etílicos. Percebi o copo vazio e o cigarro tinha queimado sozinho no cinzeiro lotado. Peguei outra cerveja, acendi outro cigarro e fumei. O rio próximo a minha casa corria o seu rumo incessante e um avião passou cortando o céu. Bem ao fundo o barulho do trem sobre os trilhos chegou aos meus ouvidos. Ainda podia escutar as faíscas que explodiam no contato com os fios da Central do Brasil, o qual seguia o fluxo diário carregando os corpos de volta aos lares. Navio negreiro partindo de mais um porto, para no dia seguinte, devolver os corpos aos seus capatazes.

Uma flor de algodão caiu lentamente no chão.

2 respostas em “NAVIO NEGREIRO”

Nossa, Walmor, que texto! Você arrasa nas crônicas! Compartilho seu pessimismo, infelizmente. Inclusive tenho uma crônica chamada “O mar não é mais o mesmo”, pelo mesmo motivo de saber que tantos corpos foram jogados nas águas dos navios negreiros durante essas travessias caminho ao inferno.
Adorei o “país de fidalgos sem títulos”. Há muitas lutas pela frente. Se cuide e avante!

Desculpe a resposta demorada, pois tenho lapsos de isolamento e silêncio.
Somos pessimistas, pois é impossivel não ser nesse país.
Mas vamos seguindo e lutando por algo novo. ✊🏾

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