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crônica narrativa

Não Era Uma, Escolha, Muito Difícil!

Por que cargas d’ água repetimos sempre as mesmas atitudes, decisões e acreditamos que o resultado vai ser diferente?

Entremeios e nos entretantos, cumpria a minha rotina cotidiana, levava os meus tutorados para o “rolê” habitual. A Escolha e o Muito Difícil, respectivamente os nomes dos companheiros de patas, não fogem da rotina, sempre vão para o mesmo lado, eu tento mudar, mas nunca cederam, puxam as guias e seguem cegamente o caminho, mesmo que seja o mais penoso. Acomodado que sou, não teimei em mudar o percurso, afinal eu posso escolher o rumo para onde vamos, mas por gostar muito da Escolha e do Muito Difícil mantenho a rota. 

E neste habitué desânimo de caminhar pelo mesmo trajeto, na mesma velocidade, cumprimentanto as mesmas pessoas, parando nos mesmos locais, todos os dias, ainda tinha a esperança de acontecer qualquer fato e assim mudar o rito inconveniente. Numa segunda-feira, mantendo o cotidiano, parado no mesmo local de sempre, encontrei a Marina, que nunca havia parado pois sempre andava na direção oposta. Mas desta vez trocou umas palavras comigo.

Marina, tem um pequeno comércio que estava em expansão, mas fez uma contratação ousada para a sua doceria,  um empregado alucinado por doces. Furiosa, a doceira, que sonhou em avançar rapidamente nas finanças, me contou o fato que declinou o seu negócio:

— Precisava contratar alguém para trabalhar no período noturno, a única função era “enrolar” brigadeiros.  Fiz um anúncio na internet e muitos candidatos apareceram, mas fiquei confusa, não queria ter muito trabalho  e acabei contratando o João da Odete. 

— O João da Odete? Mas não era ele, que sempre comentava que se caso fosse trabalhar numa doceria, comeria todos os doces?

— E então, (João) falava, mas sempre achei que era da “boca pra fora”. Mas este desgraçado comeu numa noite duzentos brigadeiros e eu não pude entregar o pedido para o cliente na manhã seguinte. Agora tenho que pagar uma  multa  tão cara que foi dividida em quatro parcelas.

Ainda pensando no caso da Marina, na manhã de quarta-feira, novamente cumpria o ritual de sempre com a Escolha e com o Muito Difícil. Na mesma trilha, velocidade, paradas e na expectativa que surgissem novidades. Na direção contrária vinha Geraldo. Gegê da cara grande, apelido que você deve imaginar o motivo, que havia se divorciado; a esposa, Márcia Fenda, teve relacionamentos fora do matrimônio. Mas Gegê tinha novidades:

— Rapaz, tenho que confessar que dei mais uma chance para a Fenda. Imaginei que iríamos ter uma época  de felicidade, fidelidade e paz. Mas o sonho acabou.

— Mas Gegê, a Fenda como um mantra repetia  “ninguém era de ninguém”.

— Falava, mas não achava que ela cumpriria a palavra. 

Na sexta-feira, marchava costumeiramente, pela mesma via, de igual celeridade, das conhecidas  pausas e numa perspectiva menor, mas existente, da transmutação de algo. A Escolha e o Muito Difícil não estavam tão à vontade como de praxe. Agora era o Henrique que repetia as circunstâncias de Marina e Geraldo, no curso oposto, a parada e tal. Henrique, tinha o apelido de “Chama”, era nervoso, mas sua raiva não “queimava” por muito tempo e sempre perdoava o motivo ou esquecia o fato que o levava ao nervosismo. Henrique:

— Tô  chateado, você acredita que eu emprestei dinheiro de novo para o meu cunhado e ele não me pagou?

— Mas Chama? isso já tinha acontecido outras duas vezes. 

— Ah, meu caro, estava esperançoso que seria  diferente.

Na volta para casa, notei que fazia sempre o mesmo caminho, na mesma velocidade, encontrando com as mesmas pessoas. Por que raios esperava que um fato diferente iria despontar?

No domingo, era dia de votação para presidência da República, estava na fila do voto e encontrei com a Marina, com o Geraldo e também com o Henrique. Todos tinham novidades: a Marina tinha dado outra chance para o  João da Odete, o Geraldo se reconciliou com a Fenda e por último o Henrique, que perdoou e emprestou dinheiro novamente para o cunhado. 

Além das decisões inusitadas que haviam pertubado o trio, também estavam imbuídos em votar no mesmo candidato e repetiram o mesmo argumento para justificar o voto: “não havia outro”(Candidato com capacidade, e se não tem nenhum, qualquer um vale). 

Após o voto, voltei para casa e finalmente veio a surpresa. Betinha, a querida esposa deste que vos escreve, adotou outro cachorro, ou melhor uma cadelinha, que recebeu o nome de Não Era Uma. Agora tínhamos três cães:  Não Era Uma, Escolha, Muito  Difícil. 

4 respostas em “Não Era Uma, Escolha, Muito Difícil!”

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