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crônica narrativa

Nam-myoho-renge-kyo

– Posso falar com você? Eu não sou ladrão.

– Diga.

– Olha só. Meu nome é William, moro ali no Alemão. Tenho 8 irmãos e minha mãe. Nunca conheci meu pai. A gente está com comida em casa, mas sem o botijão de gás, que agora custa mais de 100 reais.

– Eu sei, tenho casa também. Um absurdo.

– Você cozinha?

– Não todo dia, mas cozinho sim.

– Então você sabe. Será que pode ajudar?

– Posso, mas vou querer uma coisa em troca.

– O quê?

– Eu não sou da cidade e quero chegar até essa rua aqui – mostrei o nome num papel. Você me ajuda?

– Ajudo. Vamos por aqui.

– Preferia ir pela beira-mar.

– Tudo bem. Hoje está um dia bom mesmo. Eu até mergulhei hoje.

– Você não mergulha sempre?

– Não. Só quando estou sentindo uma coisa ruim, sabe? O mar ajuda a tirar qualquer mau-olhado. Mergulhei e fiquei melhor.

– Pois é, sinto a mesma coisa. Estava mal quando vim para cá, precisando muito de um banho de mar. Dei o primeiro mergulho e parece que tinha tirado uma tonelada das minhas costas.

– Estava mal por quê?

– Não sei, ando me sentindo mal.

– Mas por quê?

– Não sei.

– Sabe sim, não quer me dizer.

– Talvez. Acho que não estou conseguindo dizer nem para mim. Tenho me sentido a pior pessoa do mundo.

– Tá errada. Só entre nós aqui você já está melhor. Imagina se comparar com o mundo todo. Deve estar melhor que muita gente. Tenho certeza. Olha ali – falou apontando alguém que dormia no chão.

– Me diz uma coisa. A galera do morro é bem unida, né?

– Bastante. Não falta nada para ninguém lá não.

– E mesmo assim você precisa descer para pedir?

– Eu poderia pedir lá, mas ia ficar devendo. E não quero mais ficar devendo nada para ninguém.

– Sei. Mas eu ia perguntar era outra coisa. Por que o cara chega nesse ponto? Por que ele está dormindo na rua? Ele não consegue pedir ajuda em algum lugar?

– Olha, a comunidade ajuda os seus. Qualquer um que nasceu lá onde eu nasci está protegido ali. Mas não é qualquer estranho que chega e pronto. E esse cara está assim porque ele quer, né? Se ele quisesse sair daí, ele faria alguma coisa para isso e ia conseguir. Ele vive assim porque ele não quer nada. Não quer ter nada. Não quer obrigações. Quer poder parar e deitar onde e quando der vontade.

– Bom ouvir isso de você. Quando a gente pensa assim, estando do outro lado da história, parece que está sendo injusto.

– Qual lado? Daqui do asfalto?

– É.

– Olha, eu acho mesmo que qualquer coisa que a gente põe na cabeça que quer e corre atrás a gente consegue. Tanto faz onde a gente começa. Importante é saber onde quer terminar.

– Você é bem malandro, né?

– Não sou malandro não. Malandro demais se atrapalha. Eu sou inteligente, isso eu sou mesmo. O que quero, eu paro e penso como conseguir e consigo. Sabe aquele cara que eu estava falando antes de você?

– Sei.

– Ele disse que não tinha dinheiro.

– Engraçado, eu pensei até que vocês se conheciam. Ele estava falando espanhol, né?

– Estava. Ele disse que está a trabalho aqui. Cheguei perto falando a mesma história do gás que te contei. E ele disse que não tinha. Depois me deu umas moedas, depois uma nota de dois. No final me deu uma de dez. Tudo isso dizendo que não ia me dar nada. Mas eu fui mais inteligente que ele. Consegui o que queria só com argumentos e ele não conseguiu o que tentava, o que era mais fácil, que era só me dizer não.

– Então você está mais rico que eu. Se cada um que puxa conversa consegue dez reais…

– Ninguém fica rico assim. Mas, como eu disse, sou inteligente. Sei com quem conversar.

– Deve ter gente que te olha e já sai correndo, né?

– Muita gente.

– Você se sente mal?

– Pra caralho. Às vezes eu estou de bobeira, só passando e vejo as pessoas segurando a bolsa, se aproximando umas das outras, me olhando desconfiadas. Olha, eu não sou santo, mas não sou uma pessoa ruim. Já tive de roubar sim, mas nunca fiz isso assim direto na cara da pessoa, com arma, com violência, nunca.

– Já matou?

– Já. Matei um policial. Por isso que estou aqui pedindo essa grana. Não posso voltar pra onde moro agora, estou marcado. Mas consegui falar com a minha mãe e ela disse que estava precisando. Então estou me virando. Eu trabalho no morro e não posso trabalhar agora. Mas não quero que minha mãe peça nada por lá, prefiro pedir aqui.

– E como chega nela?

– Vou mandar pelo cara da lotação que eu conheço.

– E não tem medo dele sumir com a grana?

– Se ele acha que a vida dele vale cem reais… a minha não vale, a sua também não, certo?

– Agora fiquei com medo.

– Vamos mudar de assunto então.

– Você já estuprou?

– Ficou louca!!! Entre os meus a gente esfola quem faz isso. É honra. Isso não existe.

– Quero perguntar mais uma coisa.

– Diga.

– Então, se essa galera da polícia que quer te pegar, te encontrar…

– Já era.

– E o resto da polícia nem corre atrás?

– Hahahaha. Não quer nem saber. É tudo um monte de vendido. Para um lado ou para o outro. Mas tudo vendido, frouxo. E eu nem identidade tenho. Nem vou mais pra escola. Fui expulso na oitava série e não voltei mais. O trabalho que faço não assina carteira.

– Talvez você nem exista mesmo.

– Isso. Para o Estado, eu sou só uma certidão de nascimento e uma passagem na febem.

– Olha, eu acho que vou voltar lá para onde eu estava mesmo. Como a gente faz? Só estou com uma nota de vinte e queria te dar cinco, rola?

– Rola. Tem um morro aqui perto. Vamos por aqui.

Atenção, tensão, silêncio.

– Quero ficar aqui embaixo.

– Beleza.

Parada ao pé, esperando e analisando. Pessoas como eu, com a pele um pouco mais escura e castigada, as mãos ásperas, as roupas que um dia julguei não ter mais função. A música é o mesmo funk que toca na praia, assim como o céu é igual em qualquer parte. Muitos e muitos fios truncados saem dos postes do asfalto para outros mais rústicos e mais para cima. Olho e sou olhada, observo e sou observada. Eu, curiosa. Eles, sinto, sabem exatamente quem sou: mais uma atrevida, entediada, metida a valente.

– Bora.

– Já?

– Tudo certo. Poxa, foi super legal. Você deveria ter subido comigo. A galera lembrou de mim, me tratou bem. Legal saber que aqui é limpeza pra mim. Você quer voltar, né?

– Quero.

– Eu te acompanho uma parte.

(…)

– Olha, tá aqui a grana. Espero que ajude mesmo.

– Vai ajudar sim. Vou até falar a verdade toda mesmo agora. Dos oito irmãos, dois são mais velhos e já saíram de casa. Agora somos seis. Tem moleque até de quatro anos. Mas tem comida lá, sabe? Minha mãe trabalha. Minha irmã que já saiu e conseguiu estudar sempre manda algum. Mas esse mês faltou e faz três dias que minha mãe não pode fazer comida pro pessoal. Vai ajudar com certeza. Você está melhor?

– Estou, estou sim. Estava precisando caminhar, conversar. Valeu.

– Quero te ensinar uma coisa.

Mais uma, pensei.

– Nam-myoho-renge-kyo.

– Quê?

– Nam-myoho-renge-kyo. É uma palavra budista. Quando você descobrir o que quer, quando decidir mesmo, coloca essa ideia na cabeça e repete: Nam-myoho-renge-kyo-Nam-myoho-renge-kyo-Nam-myoho-renge-kyo… Pode acreditar que acontece.

– Quem te ensinou isso?

– A mulher do Nam-myoho-renge-kyo.

– Fala sério.

– Ah, uma mulher aí que foi fazer um projeto lá no morro.

– Sei. E dá certo mesmo? Você já testou?

– Porra! Você acha que eu vou acreditar nessas coisas?

– Nossa, estimulante!

Rimos.

– Olha, eu sei que para você vai dar certo, porque você acredita, não é? Eu vejo você. E vejo que você é gente que acredita.

– Sim. Sou.

– Então pronto. Primeiro acredita em mim: você não é a pior pessoa do mundo. Ninguém é. Depois coloca para fora isso aí que está incomodando sua cabeça porque certamente não vale a pena. Você está bem. Claro que tem problemas, porque todo mundo tem. Mas foca nos problemas reais e esquece os imaginários. E depois, com a cabeça limpa, escolhe o que você quer e vai atrás pensando no Nam-myoho-renge-kyo. Tem gente lá no morro que diz que as coisas melhoraram muito com essa história de meditação. Já ouviu falar, né?

– Sim. Às vezes eu faço.

– Faça mais. Vou entrar nessa rua aqui. É nela que a lotação passa.

Acenamos com a cabeça. E senti: são nos caminhos cruzados das ruas que a vida passa também.

Por Patricia Baldez

Brasiliense de nascimento, no cerrado plantei duas graduações – Comunicação e História – e dois filhos – Gabriel e Otto.

Na floresta, lá na fronteira do que não existe, reguei árvores e voltei a cultivar o amor pelas palavras.

Agora, no Nordeste, o terreno, a semente, o fertilizante e a poda de um livro se encontraram. Rego com a água do mar, cheio de sal e ondas. E escrevo por aqui enquanto espero florescer.

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