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crônica

Nada a dizer

Há quase um ano não toco as teclas desse miserável computador para escrever qualquer inutilidade que são meus textos. A mente mantêm o seu ritmo de vazio, ausência de desejos e um medo constante de pensar novamente na rua. A rua se tornou uma prisão e a minha casa a liberdade. São os tempos da intolerância rasgando os tecidos. Não tenho pensado em nada além de ficar em minha casa. Crio minhas plantas, brinco com meu cão e acordo todos os dias com medo de encontrar minha papa-mosca caída e morta no chão do box. Minha alegria são eles perto de mim o tempo todo.

    Todos os dias quando entro no banho me perco nos movimentos daquelas oito patas que bamboleiam se sustentando na parede lisa de azulejos, nas tentativas de caça do alimento diário, da transformação do seu ninho na esquina da parede e me sinto feliz por ela estar ali me acompanhando na retirada das impurezas da cidade grande. Aguardo ansiosamente o nascimento dos seus filhotes, pois acredito que aquele ninho não é apenas para o momento do sono da guerreira. Tem algo muito maior ali, a vida se perpetuando. Uma vida que vale a pena, não as vidas medíocres de seres humanos egocêntricos e egoístas.

   Tenho tido tempo para observar as outras espécies. Fico delirante com o som das maritacas, o bem-te-vi que pousa todos os dias no muro de casa, nas cambaxirras que todos os dias cantam e bailam nos galhos do algodoeiro. No fim da tarde, recebo a visita de dois pulsantes beija-flores. A vida é tão curta para ficar trancado no escritório, recebendo ordens, odiando o que você faz para enriquecer o pequeno nicho social. A vida é uma maratona de coisas belas e elas estão diante dos nossos olhos, mas o vil metal não quer que vejamos. É nessas horas que eu despejo o líquido dourado no meu copo e acendo mais um cigarro.

Tenho tido sonhos tão pesados que acordo mais cansado que dormi. Nada é tão cansativo quando se tem a cabeça pesada pelos delírios mentais. Estar às portas de fazer quarenta anos não é fácil, ainda mais quando se tem problemas ósseos que te deixam com mais dores que um senhor de noventa e cinco anos. Tudo que se tem quando está se ficando velho é o não ter mais vontades, apenas abrir os olhos de manhã e perceber que está vivo. Faço isso todas as manhãs, apesar dos porres diários me deixarem numa eterna ressaca matinal. Saio para comprar pão, vejo pessoas correndo e minha cabeça explodindo como uma bomba. Nesse instante eu percebo que fiz a coisa certa: estar sempre de ressaca. Acordar com a boca seca, beber litros d’água e tomar um banho gelado já pensando no próximo porre do fim do dia.

Não sinto falta de nada do que eu fiz e nem desejo coisas novas. Minha vida não tem mudanças. Dos sonhos que tive jamais possui talento para executá-los. Sonhei em ser fotógrafo da National Geographic, mas sou um péssimo fotógrafo. Sonhei em ser escritor, mas como tal, sou medíocre ao ponto de que nem o leitor de avião perderia tempo com inúmeras palavras tão inúteis. Sonhei em ser músico, mas a minha coordenação motora é pífia que até os instrumentos se escondem de mim. Cineasta? Essa foi a ideia mais passável que poderia ter, se fotografo mal, como poderia filmar. Perdoe-me a pretensão, Glauber.

    Gostaria de dizer coisas boas sobre mim, mas sou o homem sem qualidades do Robert Musil. Há pessoas que pensam que pessoas sem qualidades seja uma coisa ruim. Não ter qualidades lhe permite não criar expectativas nem em você e nem nas pessoas que lhe cercam. Aceito a minha mediocridade de peito aberto. Aprendi muitas coisas depois da segunda crise de depressão, mais velho ela me ensinou mais. Porém não ficarei falando muito dela nesse texto, pois já está uma escrita muito para baixo como os seres humanos dizem. Sou livre de mim mesmo, sou livre das pessoas, nenhum ser humano me faz falta.

    Abro mais uma garrafa, bebo mais um copo e deixo que a cerveja gelada corra pela minha garganta, encontre o estômago e que o fígado faça o seu trabalho árduo de purificação. Acendo outro cigarro e trago. A fumaça chega aos meus pulmões e destrói as paredes imundas desse saco de ar apodrecido pela cidade grande, é um suicídio lento e cheio de nuances, porém é a morte que escolhi para a minha falta de qualidades. Trago mais um vez o cigarro e a brisa noturna sopra sobre minha pele em decadência e sorrio para o meu cão que saracuteia pelo quintal.

4 respostas em “Nada a dizer”

“Nada a dizer” e tudo a viver, vc escreve com a alma pulsando, desde o momento q observa o papa moscas, admirando seu cão e vivendo bebendo de preferência uma loira gelada, coisas simples que antes desse novo normal talvez não tivéssemos tempo suficiente para contemplar. Parabéns e continue a escrever é o seu dom!!

Difícil nesse mundo é se encontrar, meu amigo. Porque todo mundo te empurra pra longe de si… Mas uma hora a gente se acha… e se não acha, que pelo menos faça como você, e perca tempo olhando pra algo que valha a pena, como a sua papa mosca. Um abraço!

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