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crônica

MORTEM

Se houvesse alguma esperança no fim da noite, teria eu me jogado pela madrugada inteira. No entanto, a esperança foi lançada a fogueira no mesmo dia em que o oxigênio correu pelos meus pulmões em 1981. Desde o primeiro momento os sussurros, dos lábios vazios da boca desdentada da morte, atormentaram os meus ouvidos dia sim e dia também. Sempre lutei com as poucas forças que quase nunca tive. Ela me seduz tão plenamente, que quando nos encontramos, já deixo o seu bourbon Wild Turkey, com duas pedras de gelo, e seu prato preferido pronto – por incrível que possa parecer – moqueca de camarão. Ela tem os seus caprichos. Quase me entrego aos seus caprichos, mas no fim eu resisto e deixo que ela fale sozinha.

Nos últimos tempos, mais bela que de costume, venho à escutando com mais carinho que lhe é devido. Vamos começando as carícias, trocamos afetos nos aproximamos mais e mais. Ela tem me parecido mais sedutora como o passar dos anos, a sua maturidade tem me causado arrepios, tesão e empatia com as suas bravuras de permanência. Mas ainda sim, resisto aos seus desejos de me levar para cama.  

Tenho aberto os olhos toda manhã e pensando em seu corpo atrelado ao meu. Mas olho para o lado, meu cão me fita com os olhos cheios de amor, se levanta, encosta a cabeça em peito, se joga com todo seu peso no colchão e a beleza da morte se esvai como nuvens após a tempestade numa tarde de verão. 

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