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Meu caminho tortuoso

Em 1987, eu tinha dez anos e uma das atividades principais da casa, como na maioria das famílias brasileiras, era se sentar em frente à televisão para assistir à então chamada “novela das oito”. Naquela época, estava no ar na Rede Globo (que então era o único canal que passava novelas), a telenovela “Mandala”. Eu não me lembro do enredo. O que ficou pra mim foi a música “O amor e o poder”, no vozeirão da Rosana.

Eu amava música, passava boa parte dos dias ao lado do três-em-um novinho escutando rádio ou explorando os discos de vinil. E eu gostava de cantar, fingir que eu era uma chacrete (pois é, influencias da tevê), dançava girando o dedinho em frente à tela imaginária. E aquela música eu cantava o dia inteiro. “Como uma deusaaaaaaaaaa”. E eu achava que fazia igualzinho, os tons, os alcances de voz, as caras, as coreografias.

Um dia, achei um dicionário de língua inglesa na minha casa. Eu já tinha paixão pelo inglês, adorava ouvir músicas no idioma e cantar no meu belo embromation. Na escola, a matéria ainda não fazia parte das minhas aulas, eu não sabia absolutamente nada. Mas eu achei que não devia ser assim tão difícil saber como ficaria a música da Rosana em inglês. Peguei um lápis e um caderno, enfiei o dicionário debaixo do braço e procurei palavra por palavra da música e fui escrevendo do jeito que vinha.

Aquela menina, deitada de bruços em frente à varanda da casa já sabia o que queria, como iria ganhar o seu sustento e o que ela fazia por prazer. Essa lembrança é muito presente, eu devo ter sentido uma satisfação enorme em fazer aquilo. Até hoje, eu brinco com meus alunos que eu consigo achar qualquer palavra no dicionário em menos de trinta segundos. Eles adoram e eu, leonina, brilho dentro do meu talento.

Só que eu não me conectei com a menina de dez anos. Eu sempre tive muita dificuldade em avaliar os meus desejos e a minha voz interior. Em ouvir a minha intuição. Na adolescência, momento de escolher uma profissão, eu não me lembrei daquela cena e travei diversos caminhos tortuosos. Entrei na faculdade de Secretariado, depois troquei para Direito, depois fiz curso de Comissária de Voo e por fim fui fazer Letras, porque ainda amava inglês e já era fluente. Eu acertei no curso, por fim, mas deveria ter feito bacharelado e não licenciatura. Na trave!

Até que, aos trinta e três anos, eu me tornei tradutora através de um concurso público. Sou tradutora pública, profissão mais conhecida como tradutora juramentada. E eu posso dizer que sou muito sortuda porque achei meu sustento dentro do meu talento e daquilo que me dá prazer. O destino me deu uma oportunidade, que eu agarrei para prestar contas àquela menina que já me sinalizara o que fazer. Eu sou uma felizarda porque pude me reconectar com aquele desejo, apesar de ter feito uma volta muito maior, enquanto há tantos que nunca mais se encontram com seus desejos.

1 resposta em “Meu caminho tortuoso”

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