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Memórias congeladas — e impróprias para crianças

Todo mundo tem uma memória congelada. Descolada, vagando à deriva. Sim, tipo um iceberg.

Vou contar a minha. Numa manhã de sol, estávamos eu, meu pai e minha mãe no carro, a caminho do litoral. Eu devia ter uns seis anos. Sete talvez?

Meu pai colocou no CD player — o famoso toca-fitas — do nosso Vectra cinza-chumbo o álbum dos Mamonas Assassinas.

— Conrado! Essas músicas não são para a idade do Gui.

— Ah, mãe! Deixa o meu pai tocar! — eu, o Gui, respondi.

— Isso, Sonia. Não tem nada de mais. Todo mundo gosta dos Mamonas.

— Ok. Mas se ele ouvir e começar a repetir coisa feia por aí, você vai ser o culpado!

Por que eu considero essa uma memória congelada? Talvez porque eu não me lembre do seu contexto. Nem do que veio antes nem do que se seguiu. Só me recordo desse episódio solto, de que eu, meus pais e as paredes do nosso finado Vectra são testemunhas.

“Me passaram a mão na bunda…”

— Eita!

“…e ainda não comi ninguém!”

[Risos inocentes de uma criança].

— Conrado! Essa música é imprópria para o Gui!

[Mais palavras iradas de uma mãe derrotada].

[Um suspiro constrangido de um pai ao volante].

O pior é que eu me lembro também de como aquela letra soou para mim.

No auge da minha inocência, eu achava que passar a mão no bumbum — chamemos assim, ok? — de alguém era como esbarrar ou tropeçar, só que numa parte do corpo que atendia por um nome proibido para crianças.

Quanto à segunda parte, parecia-me óbvio que… comer alguém era dar esporro ou brigar com alguém. Ralhar mesmo.

— Mãe, quando você dá bronca no meu pai, significa que você co—

— Não termine a frase, Guilherme!

E assim, dentro do nosso Vectra rumo à praia, findou a minha memória congelada.

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