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Memórias congeladas — e impróprias para crianças

Todo mundo tem uma memória congelada. Descolada, vagando à deriva. Sim, tipo um iceberg.

Vou contar a minha. Numa manhã de sol, estávamos eu, meu pai e minha mãe no carro, a caminho do litoral. Eu devia ter uns seis anos. Sete talvez?

Meu pai colocou no CD player — o famoso toca-fitas — do nosso Vectra cinza-chumbo o álbum dos Mamonas Assassinas.

— Conrado! Essas músicas não são para a idade do Gui.

— Ah, mãe! Deixa o meu pai tocar! — eu, o Gui, respondi.

— Isso, Sonia. Não tem nada de mais. Todo mundo gosta dos Mamonas.

— Ok. Mas se ele ouvir e começar a repetir coisa feia por aí, você vai ser o culpado!

Por que eu considero essa uma memória congelada? Talvez porque eu não me lembre do seu contexto. Nem do que veio antes nem do que se seguiu. Só me recordo desse episódio solto, de que eu, meus pais e as paredes do nosso finado Vectra são testemunhas.

“Me passaram a mão na bunda…”

— Eita!

“…e ainda não comi ninguém!”

[Risos inocentes de uma criança].

— Conrado! Essa música é imprópria para o Gui!

[Mais palavras iradas de uma mãe derrotada].

[Um suspiro constrangido de um pai ao volante].

O pior é que eu me lembro também de como aquela letra soou para mim.

No auge da minha inocência, eu achava que passar a mão no bumbum — chamemos assim, ok? — de alguém era como esbarrar ou tropeçar, só que numa parte do corpo que atendia por um nome proibido para crianças.

Quanto à segunda parte, parecia-me óbvio que… comer alguém era dar esporro ou brigar com alguém. Ralhar mesmo.

— Mãe, quando você dá bronca no meu pai, significa que você co—

— Não termine a frase, Guilherme!

E assim, dentro do nosso Vectra rumo à praia, findou a minha memória congelada.

Por Guilherme Formicki

Guilherme Formicki é escritor, arquiteto e urbanista. Desde pequeno, adora escrever. Na escola, ganhou seu primeiro concurso de redação ao escrever sobre uma nota musical presa dentro de uma flauta. Mais recentemente, sua coletânea Pranto e Outros Contos, disponível no Wattpad e na Amazon, ganhou o primeiro lugar no Concurso Diamantes Raros, segundo lugar no Concurso Fique em Casa e terceiro lugar no Concurso Literário Novos Talentos. Guilherme também publicou o conto “Eles” na revista LiteraLivre de Julho/Agosto de 2020.

Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 2016, Guilherme obteve o título de mestre em Planejamento Urbano em 2019 pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá, recebeu uma bolsa Lemann e ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação mais comprometida com justiça social. Guilherme também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (SEHAB), onde participou da urbanização de 7 favelas e auxiliou mais de 74 mil famílias entre 2014 e 2016. Guilherme atualmente concilia a sua dedicação aos estudos urbanos com a sua paixão por escrever.

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