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crônica

Medo de ficar só

Aprendi a ficar só. Não é fácil.

Acredito que todo momento de solidão lembra o parto. Aquela hora em que a gente vai sair do conforto para a luz. Aquela hora em que a gente vai cortar o cordão e começar a fazer força para engolir. Aquela hora em que a fragilidade de se tornar a única companhia constante torna-se concreta.

Não é fácil, mas é necessário. 

Porque a gente precisa de luz para ver. A gente precisa estar solto para aprender a andar. A gente precisa escolher o que engole, o que vomita, o que processa, o que elimina. A gente precisa de espaço para crescer. 

Afinal, na real, a fragilidade sempre esteve e sempre está. Aconchego e colo é muito melhor que chorar no escuro. Mas precisamos estar conscientes da realidade das duas experiências.

Será que dói mesmo vir à luz?

Tenho ficado muito em silêncio comigo. Noto ser um silêncio apenas exterior. Com o tempo, as coisas de dentro deixam de apenas ecoar e passam a emitir. 

Minha cabeça fala muito. Meu coração fala mais alto. Meu estômago se comunica numa língua confusa. Minha pele é muito engraçada. Minhas mãos continuam nervosas. Acho que elas não gostam de ficar sozinhas, talvez por isso tenham vindo em par…

Somente no tempo que tenho comigo sou capaz de ouvir esses sons. E toda essa música, que sou eu, é necessária para minha harmonia, é o impulso do meu ritmo, é a melodia que me dá paz.

Não, ficar só não dói. Ficar só dá medo.

Por mais que eu me entenda e me respeite cada vez mais, continuo com medo de ficar só. Não de estar, mas de ficar.

Porque nós, olha que graça!, somos música e não matemática.  Multiplicamos ao dividir. Ao tirar de nós, somamos a nós. E, sem todos os elementos do compasso, não demora para ficar tudo muito repetitivo.

Então é isso: treinar os passos e entrar na dança. Às vezes no quanto escuro. Às vezes no brilho da festa. Mas, sempre, vibrar na melhor companhia: nós mesmos.

Por Patricia Baldez

Brasiliense de nascimento, no cerrado plantei duas graduações – Comunicação e História – e dois filhos – Gabriel e Otto.

Na floresta, lá na fronteira do que não existe, reguei árvores e voltei a cultivar o amor pelas palavras.

Agora, no Nordeste, o terreno, a semente, o fertilizante e a poda de um livro se encontraram. Rego com a água do mar, cheio de sal e ondas. E escrevo por aqui enquanto espero florescer.

2 respostas em “Medo de ficar só”

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