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crônica narrativa

Maria Teimosa

Entra, filha. Desculpa a bagunça. Dia de supermercado hoje, aí, já viu, né? Toma o álcool em gel. Deixa a máscara aí no ganchinho. Nesse não, no outro. Isso. Como vão os meninos? E foi? Ah, mas criança é assim mesmo, filha, tem que ter paciência. Olha o tanto de coisa. Aproveita que você tá aqui e pega um paninho, me ajuda a higienizar. Ai, mas também, você não pode fazer um favor pra sua mãe? O tanto que eu fiz por você na vida! Esse pano não, o outro. Isso. Limpa direito, hein! O seu pai? Tá no trabalho. Hora extra. Pois é, também não sei o que ele quer fazendo hora extra a essa altura da vida. Depois tá aí estressado, correndo risco de infarto e não sabe porquê. A sua avó tá lá em cima. Se cuidando? Rum! Sua avó está impossível, minha filha! Uma teimosia… Vou te contar, viu. Sim, eu sei, eu tenho paciência. Acontece que ela passa dos limites. Não quer lavar as mãos, não quer usar a máscara… Diz que fica sem fôlego. Não, e você não sabe da nova. Encasquetou que a máscara é uma invenção do governo pra matar os velhos asfixiados. Pra não ter mais que pagar as aposentadorias, a previdência não tá quebrada? Uma criatividade… Você ri porque não é você quem aguenta. Só eu sei o que eu sofro. Eu escondi as chaves todas pra ela não sair de casa, né? Aí um dia, seu pai, distraído, que ele não presta mesmo atenção em nada, esqueceu a chave em cima do rack da TV. Sua avó sumiu. Quase fico louca. Não te falei, não? Pois ela saiu, sem celular, sem nada. Na hora eu não vi. Como é que eu ia ver, ocupada com a casa? Você sabe, com essa história de pandemia toda hora tem que higienizar as coisas, não tenho mais sossego. Mania de limpeza não, minha filha, é cuidado. Foi seu pai quem percebeu quando chegou do trabalho. Aí saímos feito doidos procurando pela rua. Sabe onde a bonita tava? Na parada de ônibus. Bem sentada, como se nada estivesse acontecendo. De bolsa, pulseira, anel, até echarpe ela colocou, você me acredita? Mas a máscara que é bom, nada. E eu tempo de arrancar os cabelos: mamãe, pra onde é que a senhora vai de ônibus nessa idade, no meio de uma pandemia? Não vou pra lugar nenhum, não, minha filha, tô aqui só olhando o movimento. Desse jeito. Disse que tava cansada de ficar em casa, que aqui parece uma prisão. Aí eu falei: e a senhora sozinha aqui, de bolsa e tudo, não tem nem medo de ser assaltada? Sabe o que ela me respondeu? Ninguém vai me assaltar não, tô sem máscara e ladrão tem medo de Covid. Você acha? Vai rindo, é porque não é com você. Ê, minha filha, é arrocho, viu? Idoso não é brincadeira. Se for teimoso, então… Não, esse pacote pode deixar que eu limpo. Já falei que não precisa, me dá. Ah, pronto. Vai começar. Sim, é doce, sim, e o que é que tem? Faz mal nada! Faria mal se fosse chocolate. Esse aqui é de banana, natural, sem conservante… Muito é saudável. Ah, esses médicos sabem lá de nada! Não vê a minha vizinha? Só comia salada e frango e qual foi o resultado? Morreu. Ela não tinha problema não, o problema dela era falta de açúcar no sangue. Não tô nada igual a sua avó. Vai querer me controlar, agora? Dá meu pote de doce. Dá, que eu tô mandando! Eu sou sua mãe! Onde já se viu, a pessoa não poder comer um docinho depois do almoço. Vou esconder, porque se eu deixar aqui sua avó come tudinho, não deixa nada pra ninguém. Falando nela, olha aí quem vem descendo: a Maria Teimosa…

Texto de hoje foi enviado originalmente para a Subtextos, mas por ser um tema tão atual, que muitos de nós passamos, optamos, com a autorização da autora, por postar aqui.

Lícia Mayra Piauiense, graduada em Direito e viciada em café, Lícia Mayra escreve desde que se entende por gente. Publicou uma noveleta de não-Natal na Amazon, Rogai por nós, e conta um conto por semana no Instagram @liciamayra.

1 resposta em “Maria Teimosa”

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